quinta-feira, 13 de julho de 2017

O lixo no casamento


As garrafas de cerveja, vinho, refrigerante, e as caixas de leite se acumulavam no canto da cozinha, anunciando, ou denunciando uma tarefa a ser feita, uma espera, ou uma função futura. Cláudia não gostava de olhar para elas, até que se atreveu a perguntar ao marido pelo motivo que os tais objetos permaneciam alí, ao invés de terem ido para a lata de lixo há muito.

_Temos que separar o lixo.

Cláudia fez uma cara de "que coisa mais sem lógica", e disse:

_Pra quê essa palhaçada? Aqui não tem coleta seletiva!
_ Mas é o certo, isso é o que todo o mundo deveria fazer sempre.

Cláudia não discordava dos princípios ambientais, da coleta seletiva, pensava que seria uma maravilha se pudesse funcionar em sua cidade, mas não existia a coleta seletiva.

_Isso não tem lógica nenhuma! Tudo vai para o mesmo lugar, isso é um trabalho inútil.
_ Pode até ser, mas eu não vou abrir mão dos meus hábitos por causa disso, todo o mundo deveria agir dessa forma.

Cláudia não discutiu mais e observou o marido guardar os objetos em recipientes separados para o descarte. Uma discussão tão simples como a maneira de lidar com o lixo a levou a refletir sobre a personalidade de ambos.O marido vivia de ideais e seguia-os, mesmo que eles não fizessem sentido imediatamente, mesmo que o trabalho de mantê-los fosse inútil em seu fim. Talvez fosse frutífero na educação dos filhos, uma vez que despertasse neles a curiosidade sobre a consciência ambiental, como aconteceu com a filha ao perguntar sobre o que era coleta seletiva. A esposa, apesar de concordar com os ideais, defendia a prática, a lógica de se realizar um trabalho com alguma finalidade. A finalidade para o marido era ideológica, para a esposa, prática.

O que ensinar para os filhos, manter hábitos cujos ideais sejam nobres, mesmo que esses hábitos não tenham uma lógica na prática cotidiana, ou ensiná-los a sempre questionar a finalidade dos atos dentro do funcionamento de um sistema? Ou, discordando da maneira como o sistema funciona, esses hábitos seriam uma forma de se rebelar contra o mesmo, trabalhando a favor da conscientização de como o sistema supostamente deveria funcionar, possibilitando que os filhos possam criar maneiras futuras de se rebelarem e promoverem mudanças?

Cláudia não se conformava com hábitos sem lógica prática. Outro dia foi a vez de discutir com os amigos sobre a validade da tal taxa de desperdício. Os amigos tentavam justificar a medida de qualquer forma, seja no plano da consciência social, ou seja na lógica dos gastos do comerciante ao ter que preparar mais uma vez  uma comida que você jogou fora. Simplesmente, Cláudia não via sentido em ter que pagar novamente por uma coisa que a pessoa já havia pago. A lógica era totalmente capitalista, ou seja, você paga por um produto, e se não quiser usá-lo inteiramente, você tem que ser punido e pagar mais ainda por ele. Quem está ganhando além do comerciante? Não me venha com consciência social! Gritava. Consciência social seria inventar formas de doar os alimentos que sobravam por não terem sido consumidos (comprados) para quem não tinha nada para comer, e não enriquecer comerciante!

Cláudia era prática, Celso era idealista. Eles se complementavam, mais do que se irritavam com a maneira de enxergar o mundo, por que, na verdade, ambos nutriam os mesmos ideais, apenas vivenciavam a realidade de maneiras diferentes. Afinal, por que brigar sobre a maneira como o lixo será descartado, quando o que importa é a maneira que querem construir o  mundo juntos?

E você, como descarta o seu lixo?

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