quinta-feira, 30 de março de 2017

A teia de aranha


Eram amigas desde a infância, a grandona e a baixinha, como as chamavam. Mas a baixinha não se sentia tão amiga assim, sempre subjugada, analisada, recriminada, por que era fresca e tinha inclinações artísticas. A altona era, por sua vez, imperiosa e objetiva, as coisas eram sempre pretas ou brancas, não havia bolinha no yin e no yang. Parecia que a estatura era a materialidade de sua personalidade autoritária e assertiva.

A alta era a Renata, a baixinha era a Clara. Durante a adolescência, vivenciaram muitas aventuras, mas nem tão venturosas, por que Renata não era dessas de pagar mico. Quando bebia além da conta, queria obrigar a amiga Clara a ceder a qualquer um que julgasse digno. Uma vez, quase forçou a amiga a ficar com um caboclo 20 anos mais velho cuja aparência causava em Clara repugnância, além de estar bêbado como Renata. Acusaram-na de infantil e disseram que ela nunca seria adulta se não fizesse aquilo o que queriam, que era ficar de beijos, abraços e esfrega com um homem que deveria se envergonhar por aquela situação. Não era adulta, mas não iria fazer o que não queria. Essa era a Clara.

Apesar de se sentir intimidada na presença de Renata, Clara sabia que podia confiar seus segredos a ela, e sabia que poderia contar com ela nos momentos mais difíceis, como quando ela se engraçou com um colega de trabalho que tinha namorada. Na verdade, Renata é que fora a demônia da ocasião, tentou tanto os dois, que em uma confraternização de trabalho, os dois, Clara e o comprometido,  caíram em tentação puxados para o canto pelas próprias mãos da amiga. Nessa época, as amigas trabalhavam juntas em um supermercado, lugar onde passaram grandes momentos, inclusive alguns onde colegas brigaram com Clara por não gostarem das caricaturas que ela havia feito deles. A briga com os colegas não foi pior que a reação do chefe quando viu aquele elefantinho com sua cara e seus tenisinhos de esporte no canto de uma nota fiscal velha. Rua foi pouco.

Clara adorava cantar "Renata ingrata" e fazer passos bregas para irritar a amiga, Renata a chamava de Clara de ovo. Apesar de tudo, as duas tiveram pouquíssimas brigas durante a vida. Mas a vida não tem nada definido ou definitivo, percebemos isso quando já estamos tão longe, que olhar para trás nos faz ver apenas uma sombra de nós mesmos, e os momentos vividos, os que ainda permaneceram nas desbotadas memórias, parecem parte de uma anedota do passado contada por um tio fanfarrão. Foi assim que, aos quarenta e poucos anos, Clara pensou em Renata quando ela voltou à sua vida. Em tempos modernos de comunicação virtual, bastaram alguns caracteres e muita determinação para que Renata a encontrasse em alguma dessas redes sociais. Foi estranho, já havia se passado quase 20 anos depois que Clara tinha viajado para um intercâmbio a fim de estudar artes. Renata havia ficado, na mesma cidade, com as mesmas pessoas, as mesmas ideias e ideais sobre a vida e o mundo.Clara estava morando em cidade vizinha. Não tinha filhos, tinha um marido, também artista, os dois vivam em seu atelier fazendo suas artes. Eles tinham também o Gertrudes, um cachorrão vira-latas cor de mel magnífico. Renata tinha três filhos e um emprego em uma secretaria da cidade. O marido era técnico em uma dessas indústrias gigantes. Ambas diziam-se felizes em suas vidas.

Após lembranças do passado, das quais Renata era a fonte geradora e Clara admiradora e incrédula de sua própria participação nelas, resolveram encontrar-se. Renata teria folga, iria à cidade da amiga.

Clara comprou uns biscoitinhos caseiros, licor de cacau, chá de ervas, fez leite queimado, bolo aromático e alguns salgadinhos. Renata chegou às 13:30, como combinado, foi direto ao endereço. Os maridos começaram a conversar e foram para fora de casa, ver o movimento, enquanto Clara arranjava os quitutes. Renata sentou-se na cadeira de palhinha, olhou a decoração colorida e esvoaçante, viu algumas teias no canto cheia de cadáveres de ex-jantares e disse:

_Está que nem uma árvore de natal, dá para pendurar umas bolinhas ali.

Clara apenas sorriu. Viu o abismo entre os dois mundos, que antes não percebia. Viu a pobreza daquela alma e como aquela alma havia deixado de evoluir. Aquela pessoa estacionou-se em sua adolescência, e aquela época era a única que existia para ela. Parecia morta, um exoesqueleto de uma barata. Não eram amigas. Não, mas não deixaram o carinho do passado morrer. Aquela pessoa fora importante em sua vida, mas não fazia mais parte de sua vida. Eram duas almas que em nada mais se conectavam, a não ser por momentos dos quais Clara possuía vagas lembranças.


sexta-feira, 24 de março de 2017

É normal ser dependente da internet


Quando inventaram a câmara de bronzeamento artificial, todos queriam usar, estava na moda e parecia seguro. Hoje, muitas pessoas desenvolveram câncer de pele e até perderam a visão por causa do abuso de tal artifício. Lembro-me disso quando questiono meus filhos sobre o abuso do uso da internet e eles me dizem que todo o mundo só fica na internet. Argumentam que não têm nada para fazer e que não tem ninguém com quem fazer algo, todos estão lá. Chego em casa, sinto desespero. Vejo todos com as colunas arqueadas e olhos fixos no celular, digitando freneticamente ou soltando gargalhadas. Quando assistem a televisão, não assistem, ficam se inteirando sobre o programa com outras pessoas na internet. Quando está acontecendo algo importante, precisam se expressar através das redes sociais, terem a voz ouvida e comentada. Não estão nem lá, nem cá. Ninguém nunca está onde está, e se está com alguém aqui, o deixa para estar com outro lá, e se esse outro vem para cá, também é abandonado, porque o que importa é o meio, não o fim.

É difícil estar com as pessoas, só com elas. É difícil por que exige esforço e atenção, exige reflexão mais profunda para preencher alguns silêncios. Exige olhar, exige toque, exige interação. Na internet, o tempo é preenchido com vastas opções e inúmeras janelas, sem precisar mover um músculo da cabeça. Estáticos, zumbis, múmias, pedras, próprias máquinas.

O problema é que isso é considerado normal. É normal ser dependente do celular, passar o dia inteirinho olhando para a tela e ficar a madrugada acordado, conectado. É normal ficar tirando selfies o tempo todo. É normal ficar conectado no Facebook e dividir a vida com o mundo inteiro, como se fôssemos celebridades. É normal deixar que qualquer pessoa venha nos importunar e perturbar nossa rotina. É normal ficar horas conversando com pessoas com as quais não temos objetivos, ou mesmo, amizade. É normal deixar as pessoas de lado para dormirmos com o celular. É normal deixar de sermos um ser humano para nos tornarmos um ser, um personagem fabricado através de fotos, fatos, discussões e boatos. É normal ser escravo.

Se é normal, eu não sei. Sei que não é fácil não ser escravo. Sei que não é fácil não se fascinar e se deixar levar pela magia das possibilidades infinitas da internet e pelo entusiasmo da satisfação pessoal oferecida pelas redes sociais. Não é fácil interagir, se mover, falar, cantar, brincar, ler livros, passear e olhar o mundo. Não é fácil discutir relação. Não é fácil desenhar com os filhos, se concentrar. Nem sei se é assim que o mundo deveria ser. Eu só sei que o mundo atual me deprime, e que não posso sair dele. Se daqui a alguns anos, as consequenciais desse uso e abuso aparecerão, não sei. Quando inventaram a impressão de livros, creio que muitos também se sentiram como eu.Talvez eu seja uma visionária, ou talvez, uma retrógrada. Mas, cada um precisa tomar suas decisões, é a vida que voa. Vida que voa.


Sobre a dependência das tecnologias - Padre Fábio de Melo

Eu não sou religiosa, mas algumas mensagens são válidas, não importando de onde venham.


Cultive a intimidade - Pe. Fábio de Melo - Programa Direção Espiritual 22/03/2017

terça-feira, 21 de março de 2017

Desapego




Gostaria de me desapegar, ser livre e deixar livre, não pensar, não sofrer pela ausência, não necessitar da exclusividade; Gostaria de, simplesmente, viver os momentos, sem me preocupar se amanhã terei mais, ou se o que tenho será de outro. Gostaria de ficar relaxada e dar a todas as coisas o mesmo peso e valor, aceitar que os outros tem o direito de não estarem apegados a mim. Gostaria de me sentar e meditar, ver, ou não ver o tempo passar, transcender... Gostaria de dizer aos que amo, vá! Volte se quiser, e não precisa olhar para trás. Caso assim fosse, não haveria amargura em meu peito a cada ausência, não haveria rugas entre os olhos ou dores pelo que poderá ser; seria totalmente livre e sem sofrimento, bebendo da vida e de seus momentos transitórios. Mas não sou.

Eu sou esse fogo que arde de desejo e de falta, essa vontade do infinito, essa ânsia por exclusividade. Eu sou essa ordem que desenha o futuro, sou essa desordem que anseia o imprevisível. Eu sou aquela que se perde nos momentos e no tempo, aquela que se afunda em pensamentos e delírios, a que está doloridamente viva e que deseja vorazmente.  Sou a que depende, a que sofre, a que rumina, a que entra em desespero e em nirvana. Eu sou essa não evoluída, que ama primitivamente e quer tudo.


terça-feira, 14 de março de 2017

Esse é pra casar


Alguém pra casar, antes de tudo, tem que ter muito amor no coração, mas não é desse amor mixuruquinho aí, que a qualquer problema, joga o ameaço de abandono do barco. O amor pra casar é aquele que tem a certeza da união até que a certeza da separação possa chegar.

Sendo assim, temos o segundo ponto, o do comprometimento. Aquele pra casar vai estar comprometido, munido de força e de fé. Aquele que é pra casar sabe que o primeiro item, o amor, não vai pular pela janela quando as dificuldades entrarem pela porta. O amor vai permanecer porque quem ama terá a certeza de que valerá a pena.

Aquele que é pra casar, é aquele que tem a certeza de que quer casar. casar significa assumir uma posição, um lugar, uma vida. casar é querer estar mais próximo, junto, planejando, seguindo. Aquele que é pra casar sabe e gosta disso.

Aquele que é pra casar, vai estar pronto para abrir mão de si algumas vezes pelo outro, mas não vai abrir mão de ser quem é, por causa de si mesmo e por causa do outro. Os que estão prontos para se casarem saberão que a união é para somar, não é para destruir as individualidades.

Quem é pra casar vai sentir fogo pelo seu amor, e não vai sentir vergonha por ser apaixonadamente apaixonado por seu conjugue, embora piadas machistas digam o contrário. Aquele que é pra casar, vai desejar o amado como um menino deseja a sua primeira namorada.

Aquele que é pra casar, gosta de se aninhar em seu amado e gosta de dormir de conchinha, mesmo que o ombro doa. Quem é pra casar, quer uma companhia, um amigo, um parceiro. Quem é pra casar quer alguém na hora em que os olhos se fecharem ou estiverem prestes a se abrir.

Aquele que é pra casar, vai ver as qualidades do amado e vai incentivá-lo. Quem é pra casar entende as necessidades de solidão, de busca, e de paz.

Quem é pra casar é aquele que está pronto para viver o amor com toda a sua intensidade, e para enfrentar a montanha russa da vida a dois, com todas as subidas e descidas, e com todas as suas fortes emoções. Quem não tem paixão, prazer e disposição, nunca deveria se casar.


segunda-feira, 6 de março de 2017

Conversas de domingo


Resumo 1:

O socialismo seria a única salvação para a humanidade, o único caminho, pois ele se basearia na ética, ou seja, em valores humanos que seriam considerados universais, dentre eles, ou, representando todos eles, a aceitação de que todos os seres humanos são iguais e que nunca deveríamos tratar o outro de maneira que não gostaríamos que fôssemos tratados. A questão que me pego fazendo é, como a ética pode se diferenciar da moral se certos principios, que deveriam ser considerados universais, não os são, como esse princípio básico de igualdade entre os seres humanos? Como a ética poderia ser considerada como argumento lógico, se não haveria o determinismo, ou seja, o homem não seria naturalmente bom ou mal, tudo isso de acordo com os autores citados? Sendo assim, como a ética, que tomo como o sentimento ou noção de certo ou errado que seriam universais, poderia ser a fonte da razão, se o homem não nasceria com seus princípios de bondade ou de maldade, de certo ou de errado, já que não há determinismo? Se o socialismo é um princípio que precisa ser construído, tomando como exemplos nações que não se dizem socialistas, mas que aparentemente usam os princípios socialistas, como a Suécia e a Alemanha, utilizando como base a razão ética como sendo a verdade absoluta, como não dizer que não há determinismo? Como diferenciar ética da moral, se a ética em países de cultura afro se diferencia da dos países asiáticos e assim por diante? Como tomar a ética como principio racional para legitimar qualquer teoria? Como não relativizar, se o ser humano é essa complexidade dentro de seu tempo, de seu espaço e de sua história?

Quanto a indústria cultural, pode ser uma bosta, mas é parte da cultura e do ser humano, que é um consumidor natural. Concordo que a cultura não deveria ser barateada, surrupiada para se transformar em souvenirs, concordo que o sagrado deva ser preservado, o sagrado para cada ser, seja sua casa, sua família, sua religião e até mesmo seu futebol. Tratam-se de valores grupais e individuais nos quais baseamos toda a nossa relação com o mundo, e essas relações são construidas culturalmente. Há de se respeitar símbolos e  rituais, mas acima de tudo, há de se respeitar o ser humano. Aqui entra a minha ética, que não é compartilhada por todos. Se alguém quebra um símbolo que é sagrado para mim, o profana, o rouba e ganha dinheiro com a sua banalização, está desrespeitando o ser que sou, o ser ideológico. Há uma diferença, creio eu, entre ser ideológico e ser físico. Discussão complexa, onde a ética se distingue mais uma vez entre esses dois mundos, o mundo ideológico e o mundo físico. desrespeitar o outro moralmente, ideologicamente, pode ser considerado antiético para muitos, quando para outros, a ética só se aplicaria ao desrespeito físico. O que penso sobre isso? Ainda não sei.

Quanto ao que se é considerado de baixo valor intelectual, ou como parte apenas da cultura capitalista de entretenimento, ou ainda, como barateamento das questões culturais, apenas penso que  tudo também é cultura, não é uma coisa desconexa. Tudo tem o seu  lugar e convive junto, como sempre, ganhando-se mais ou menos por isso, explorando-se ou não a força de trabalho, força que sempre fora explorada, seja na escravidão, nos feudos ou no capitalismo. O barateamento supre as necessidades de entretenimento, tira a pessoa de pensamentos reflexivos, tem o seu papel, assim como o futebol. O que acrescenta ao ser pensante uma partida de futebol? Nada além de entretenimento e paixão. O futebol tem o seu público, assim como o programa do Silvio Santos o tem, porque precisamos disso, TAMBÉM. Mas, não precisamos só disso, ou, não precisamos primordialmente disso. Precisamos nos questionar sempre, e, dentro da "minha" ética, respeitar o outro, ou seja, deixar que o outro viva em paz com suas crenças, seus símbolos, seu sagrado e seu corpo (que também é sagrado).


Resumo 2

"O conceito de direita e  de esquerda teria tido inicio na Revolução Francesa quando quem era  contra o governo, ficaria do lado esquerdo nas igrejas, e quem queria manter o regime, do lado direito; no Brasil, não existiria mais esquerda e direita,  o que existiria seria o fascismo e o restolho da direita.  A direita brasileira seria a categoria dos que podem se opor ao governo, mas não se opõem às leis, ou seja, não concordando-se com algum problema social; não poderia agir por meio da ilegalidade ou da força, mas por meio das instituições vigentes, alterando-se a legislação, dentro da ordem. A esquerda defenderia as modificações mesmo que se necessário fosse o uso da força, da guerra civil e por aí vai. As mudanças deveriam ser a partir da sociedade, da iniciativa privada.O Estado brasileiro teria se perdido, pois chegaria a ser ridícula a esmola que se deu ao povo perto das fortunas que se construiram e os empréstimos milionários concedidos para a manutenção do sistema."

Eu creio que realmente não há mais direita e esquerda no Brasil, o que há, como sempre, são os interesses individuais. Aliás, o problema da humanidade é que ninguém está disposto a abrir mão de seus privilégios para promover o bem social. Concordo também que, apesar de o governo do PT ter trazido grandes mudanças para todos os brasileiros, sobretudo para as classes menos favorecidas, criando programas sociais e possibilitando o ingresso de muitos dentro das universidades (não podemos negar os avanços sociais ocorridos nos últimos anos), o partido se vendeu para fazer parte do sistema.Tudo o que vem aparecendo, ou o que se permite aparecer dentro dessas denúncias, ou ainda, tudo o que se dá destaque, não é nada além do que sempre aconteceu na política brasileira, a corrupção, que é aceita com normalidade e resignação na cultura brasileira. Neste ponto, concordo que as sociedades precisam ser construídas, que os valores precisam ser construídos.Quanto a sociedade privada, não penso que represente a sociedade. Ainda sobre os indivíduos não quererem abrir mão de seus privilégios, seja isso determinista ou não,  obviamente, quem detém os privilégios não irá querer se desfazer deles. O bem social não é prioridade, a não ser que o bem social traga benefícios individuais para quem já possui os privilégios. Essa é outra noção que precisa ser construída, a de que uma sociedade terá mais paz e felicidade se todos os seus indivíduos tiverem os mesmos direitos e condições, não privilégios. Seria isso um conceito universal? NÃO! São conceitos que tomamos, ou tomei como certos na direção de se obter uma sociedade ideal.

Resumo 3

Descobri que Silvester Stalone, durante as filmagens de Rocky IV quase morreu ao levar um soco de verdade no peito. Discuti sobre a maneira correta de se congelar o feijão, se temperado ou sem tempero. Segundo um site qualquer, a maneira ideal seria sem tempero, isso me deixou irritada e cética. 

Conclusão:

Só sei que nada sei. Não quero mudar o mundo, não quero ser mártir, nunca serei guerrilheira, quero saber do feijão de amanhã e de quando terei condições de ir a Paris ou ao sertão. Desejo um mundo melhor, igualitário, respeito o próximo. Respeitar significa aceitar que o outro tenha suas diferenças, pensamentos e credos, não quer dizer que eu seja obrigada a estar sempre em todos os grupos; devo aceitá-los como sendo iguais aos meus grupos, com os mesmos direitos de existirem e coexistirem. Preocupo-me com a minha comunidade e sobre como posso contribuir, mas não sou militante, acho. Não creio no conserto dessa humanidade, não nos próximos séculos.  Não tenho respostas e não sei qual o conceito de evolução. Sei que aqui estou, e que tenho essa vida, e que por ela sou responsável. Sei que essas discussões me tiram o sono e o sossego, até que eu venha aqui e escreva. Só.



domingo, 5 de março de 2017

TEMPUS FUGIT: O IMPACTO DAS REDES SOCIAIS NOS RELACIONAMENTOS.

Essa postagem é uma gentileza da minha amiga Talita Dias, que escreveu sobre as relações em tempos de Facebook, a meu pedido. Vale a pena ler:
 Por Talita Cristina Dias
"Dra., minha esposa me trocou pelo Facebook!" Essa e outras do mesmo estilo, são frases recorrentes para advogados atuantes no direito de família, inúmeros são os casos de ruptura de laços familiares onde o grand mèchant é o Facebook e outras redes sociais. Não pretendemos esgotar o assunto que é de grande complexidade, todavia, pretendemos introduzir algumas reflexões sobre Facebook.
A exposição da intimidade, o abandono familiar, a "venda" de uma realidade inexistente, tem sido frequentemente lançada nos tribunais como causa para a ruptura de diversos relacionamentos, sendo comum vermos famílias arruinadas pela falta de bom senso e uso excessivo das redes sociais, sobretudo o Facebook.
O Direito é a mais social das ciências, e por excelência, é impactado pelas alterações sociais, a ponto de reconhecermos que o Direito, atualmente, deve "correr atrás" das constantes mudanças sociais. Hoje, muitos relacionamentos começam e terminam com o auxílio do smartphone, tablets, laptops e afins.
O que poderia ser celebrado como um avanço comportamental, na globalização e socialização de informação, muitas vezes vai justamente em desencontro ao que pretendia o usuário, e muitas vezes o uso de redes sociais acabam por virar um pesadelo na vida do internauta.
Não há que demonizar o Facebook e congêneres como únicos culpados pela ruína de relacionamentos, todavia, podemos elencar algumas facetas desse fenômeno que ajudarão o leitor a entender o porquê de tanta reclamação.
Inicialmente temos que refletir sobre a abrangência do Facebook, onde há uma suposta democracia entre os usuários, estimulando a pessoa a acreditar que alí existe um espaço onde a manifestação do pensamento é livre, que terão a oportunidade de expressar-se de modo que a vida real jamais o permitira.
Alguns usuários postam uma frase ou uma foto e começa um processo narcisista de espera para ver quantos likes e coments seu post terá. Isso demonstra uma certa carência afetiva, a busca por um reconhecimento e sucesso que a pessoa talvez não tenha na sociedade, e essa carência é afagada com a aprovação ou compartilhamento do conteúdo.
Em tempos de aguçados debates políticos no Brasil, o Facebook também tem sido largamente usado por famosos e "anônimos" para divulgar uma posição, mas o usuário deveria refletir se a opinião dele realmente importará em alguma coisa, ou se ele está alí, fissurado diante da tela, esperando um debate que não lhe devolverá nenhum ganho ou satisfação real.
Aliado a isso tudo, temos que o Facebook pode ser caracterizado como uma vitrine de uma vida que se pretende mostrar, de inocentes fotos dos filhos indo à escola, às selfies mais sensuais, o usuário, inconscientemente expõe sua vida publicamente, deixando de lado todo  qualquer bom senso com relação à segurança dos pequenos ou da privacidade de um lar.
Enganam-se com a opção de manter as fotos e posts classificados como conteúdo privado, depois da "descoberta" do famoso print nada fica oculto nas mídias sociais.
Problema algum há no compartilhamento de eventos da vida do usuário, esse estilo de vida já está aderido ao cotidiano, a problemática começa quando o uso demasiado do Facebook começa a refletir e impactar o a vida não virtual do usuário.
Quando falamos de relacionamentos amorosos, as reclamações, ao contrário do que se pensa, não residem somente no campo da infidelidade. O Facebook ou Whatsapp não reinventaram as traições entre casais, esse fenômeno é apenas a tal adequação de eventos de vida à realidade.
Falamos aqui do bem mais precioso que o ser humano tem, que é o TEMPO, esse sim tem sido tomado pelas redes sociais de forma silenciosa e avassaladora, gerando intermináveis conflitos, brigas e rupturas de laços amorosos.
Quando o sujeito deixa de viver a vida real, deixa de olhar o azul do céu para olhar o azul do Facebook, vivendo um mundo que não existe o que se está perdendo é TEMPO e VIDA.
Os casais que são de certa forma dependentes desse contato virtual constante acabam por enfraquecer os laços reais, criando realidades paralelas, desperdiçando vida em atividades inúteis.
Não é incomum ver pais deixando filhos de lado para ver só um post que levará a outro e outro, e quando se nota, lá se foram horas, essas horas nunca mais voltarão, e qual é o benefício? Qual foi o ganho do indivíduo?
Que triste é ver uma criança tentar mostrar uma atividade feita na escola aos pais e estes estarem mais preocupados com os likes das fotos dos pequenos na rede. Assim o usuário se perde na rede, se perde na vida, e acaba frustrado, com os laços amorosos e familiares enfraquecidos, muitas vezes chegando ao inevitável que é a ruptura.
Façamos uma reflexão do quanto de VIDA que se perde nas redes sociais, será que não deveríamos desligar os aparelhos e olhar ao redor com mais cuidado? Certamente ao seu lado haverão pessoas que querem um pouco do seu tempo, que querem compartilhar seu tempo no mundo real, e não querem fazê-lo para mais um post, ainda há espaço para vivenciar experiências genuínas.
Como operadora do Direito, deixo uma frase mais que conhecida no meio jurídico que cabe perfeitamente no que tentamos demonstrar: Tempus Fugit, isso mesmo, o tempo foge, fazer racional uso do tempo é questão de bom senso!

Talita Cristina Dias
Advogada e Cientista Social graduada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUCC, pós graduada em Direito Empresarial, Direito do Trabalho, Direito Previdenciário e especializações.
contato: talitacdias@hotmail.com
 



quinta-feira, 2 de março de 2017

Um dia de carnaval em Ouro Preto


No meio dos foliões, um casal estranho tentava sincronizar os passos de dança. Ele, ligeiramente mais baixo, ela, aparentemente, não era de baladas. Ele também não tinha lá o samba no pé, os dois tentavam estar íntimos sem intimidade. Ele a abraçou pelas costas e suas mãos deslizaram lentamente para os seios dela. De repente, ela saiu apressada e ele saiu atrás, desengonçado, como se a não quisesse perder. Depois de alguns minutos, lá estava ele, sozinho, dançando em seu desengonçar. O povo cantarolava as marchinhas, o frevo, pulava, se embriagava, se esquecia. Uns brincavam com os apetrechos dos outros, tiravam selfies da alegria, tiravam fotos com os mais engraçados. Mais adiante, um menino franzino correu atrás de uma adolescente e a segurou pelo braço, lascou-lhe um beijo. Ela correspondeu, e nenhum viu sequer o rosto do outro. Findo o curto êxtase, a menina correu e o menino saiu saltitante e risonho. Comi dois sanduíches de pernil, com pão velho, mas recheio bom, o mais em conta. Pulei com Eva, cantei Tempo Perdido, dancei Zé Ramalho e sambei pagode. Beijei o meu amado, ri com o amigo. Adiante, onde a muvuca se concentra nos shows, a "solitária de Ouro Preto" recebeu a atenção de um folião animado, nunca vi sorriso mais largo! Estava só. Um cantor de reggae com violão de papel chamava a atenção e ouvia os gritos de "toca Raul"! Uma banda cantou com a barriga, não seguiu os padrões impostos. Alguns se perdiam, outros se achavam. As fantasias, antes abundantes, eram raras. As cores bregas dos abadares dominavam os espaços, nosso tempo. A caipifruta estava a dez reais, não vi ninguém tomando. Bons tempos, os velhos.

Gente que nunca sai, saiu, gente que nunca dança, dançou, gente que sempre esteve em si, foi para fora. Os pés não se cansaram, o corpo não se abateu e o êxtase coletivo durou até sabe lá quando, Porque eu fui dormir. Esse foi o meu último dia de carnaval de 2017 em Ouro Preto, com amor, carinho e alegria.

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