quarta-feira, 13 de setembro de 2017

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Que diabo é ética?


Ética.

Primeiramente, não existe uma ética universal. Supor que exista uma ética universal é corroborar o naturalismo, dizer que o ser humano nasce assim ou assado. Por outro  lado, supor que não somos naturais e ignorar que ainda não sabemos quase nada sobre nossa natureza, é negar a obviedade que explode sob nossos olhos e que está presente em perguntas infantis das quais nos esquecemos quando crescemos. Como o João-de-Barro constrói sua casa sem nenhuma aula de arquitetura? Como as abelhas sabem produzir o mel e organizar suas colmeias? Como os animais sabem o que é e como cruzar e sabem cuidar de seus filhos? Não é por observar e copiar a ação do outro, mesmo que isolado, saberá o que fazer. Há algo, chamemos, como chamaram, de instinto. Não, não nascemos sabendo o que é bom ou ruim, nascemos sabendo o que devemos fazer para sobreviver e procriar, grossamente. Porém, a humanidade se complexificou, e o que precisamos saber/fazer para sobreviver, mais ainda. Inventamos desejos que vão além das necessidades básicas, as comunidades cresceram e as dificuldades em se viver nelas, mais ainda. Normas, leis, esquemas,estruturas foram criados. A ética também.

Escolhemos a ética e ela nos escolhe. Ela nos escolhe quando nascemos em uma sociedade em que ela está inserida. Nós a escolhemos quando analisamos um determinado conjunto de ética e preferimos um universo a outro. É o que acontece quando um jovem ocidental decide que matar pessoas e se matar por uma causa é algo legítimo. Ética é escolha e hábito.

Alguns teóricos definem ética com base na sociologia e Marx; para esses, a ética deveria se basear no bem comum da sociedade, na aceitação de que devemos tratar a todos como a nós mesmos, pois só dessa forma, haverá harmonia e igualdade dentro da sociedade. Não digo que isso seja correto ou errado, concordo até com essa afirmação, digo apenas que é um ponto de vista, como tudo. Considerando que o objetivo individual seja que a sociedade viva em paz, e que essa paz seja benéfica para o individual e para a humanidade, definimos certas regras que poderiam levar a esse estágio de sociedade ideal. É uma escolha baseada em uma lógica. Quando falamos de lógica, não quer dizer que as considerações sejam inquestionáveis como o resultado de uma equação matemática, mas que o ponto em questão possui um concatenamento de ideias que leva a uma certa conclusão aparentemente lógica. Cada teoria possui sua lógica, até mesmo a de Hitler, tanto que convenceu a milhares.

A lógica é construída através de argumentos que movem e comovem, já diria Socrátes com seu pathos, logos e ethos, que no fim não se dividem, mas trabalham conjuntamente.

Deixando essa discussão sobre o que seja ética de lado, o que me levou a escrever mais essa postagem que ninguém lerá, é o enjoamento crescente que sinto com a hipocrisia e a falta de ética, a corrente em nossa sociedade, de alguns seres viventes.

A mentira é algo exclusivamente humano, obviamente, por depender da linguagem. A mentira consiste em criar fatos, situações, identidades, sentimentos, que não existem e nunca existiram. O mentiroso encena, finge, engana, com a intenção de levar alguma vantagem, seja de espécie material ou social. Para mim, o mentiroso fede e é antiético, dentro da ética que escolhi.  

Em alguns casos, a mentira pode ser considerada ética, como quando contada para salvar uma vida. Esse também é o papel da ética, ponderar em que situações é permitido um determinado comportamento. Porém, como podemos perceber no mundo real, ética serve muito mais para teatro que para regra a ser cumprida.

Talvez, um psicopata que tenha vendido o seu filho para o amante e depois escrito em redes sociais o quanto ama esse filho, mais que tudo nesse mundo, tenha a sua lógica que faz parte de sua ética.  Uma pessoa que engana a própria mãe, que a rouba, explora, e tira fotos com ela no hospital, acha que está correta dentro de sua ética individualista.  Outra que carregue bandeiras de lutas sociais, e dentro de casa humilha seus entes, usa da lógica de manter o seu próprio bem estar. Aquele que fura fila quando encontra amigos, aquele que faz e aceita suborno em autoescolas, aquele que quer pegar mais docinhos nas festas, aquele que pensa que os outros são obrigados a manter seus luxos, trabalham sob uma ética, uma lógica. A ética do individualismo, do foda-se todo o mundo.

Ética é escolha. Escolha social e pessoal. Eu escolho ser eu mesma, não ser escrava da opinião alheia, não ter ídolos. Eu escolho não ferir e não enganar. Eu escolho tentar fazer com que a ética de minha família leve em consideração esses pontos. Que sejamos pessoas naturais, reais e humanas. Que respeitemos o outro exatamente da mesma forma que desejamos ser respeitados. Que cada um vá e lute por sua sobrevivência e não vá se escorar no outro; que escolham a ética da realidade e da liberdade.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Amor de loucura


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Dizem tantas coisas sobre o amor, eu mesma já cansei de inventar poemas e teorias sobre esse sentimento que move tudo. Gostaria de poder concordar com alguma dessas milhares de definições, e com nenhuma delas, gostaria de contentamento.

Dizem que amor é altruísta e incondicional, mas também dizem que amor é loucura e egoísmo, e que só acontece em determinadas condições. Meu amor tem condições em alguns termos e é incondicional em outros. Na verdade, nada é incondicional, a não ser a loucura, que também não estou muita certa de que não seja amor.

Meu amor é loucura, é apegado e romântico. É fraternal, é irritante, é altruísta e egoísta. Meu amor arde, deseja, ama e odeia.  Meu amor é calmo e é furacão. Meu amor é igual a tantos outros amores, que construíram Taj Mahals, mas será sempre único e especial.

Amo.


terça-feira, 29 de agosto de 2017

O terror dos celulares na escola


O maior problema dentro das escolas atualmente é a dispersão causada pelo uso dos telefones celulares. Aliás, ao meu ver, o excesso do uso de tais dispositivos é o maior problema da humanidade, por diversos motivos. 

Buscamos prazer o tempo todo, e, quanto mais fácil, melhor. Basta abrir a tela de nossos celulares, computadores e qualquer coisa que nos dê acesso ilimitado a uma infinidade de inutilidades que permitam ao nosso cérebro mergulhar em um estado de dormência prazerosa, que nos esquecemos do nosso mundo material ao redor. Como competir com a internet?


O problema é que os adultos também estão tão viciados nas comodidades prazerosas de seus smartphones que não se sentem no direito de exigir dos alunos que não utilizem seus telefones dentro da sala de aula. Para todos, fazer de seus telefones extensão de seus seres se tornou algo tão natural, que não imaginam como exigir de crianças e adolescentes que não toquem em seus aparelhos enquanto estiverem dentro da sala para estudarem. Por que parece tão absurda tal exigência?


Todos se perderam dentro das inundações tecnológicas. Fazemos esforços para tocar nossas vidas, quando o que queremos, é ficar sentados em frente a tela, vendo vídeos engraçados, comentando polêmicas, postando fotos para ver o quanto estamos bem e fazendo sucesso, conversando com todo o mundo sobre nada. Transferimos o fazer material para o fazer virtual, e de lá, ditamos regras para a materialidade. Não temos mais paciência para leituras e reflexões profundas, temos preguiça de esforço mental e físico, estamos perdendo a capacidade de interação com as outras pessoas, não sabemos mais decodificar sinais físicos de interação; não criamos nada verdadeiro, não questionamos nada por mais de um dia, nossa indignação é rasa e depende da onda. Enquanto o wifi estiver funcionando, que o mundo se exploda lá fora e que todas as decisões sejam tomadas pelos outros.

Tudo precisa fazer sentido e demonstrar ter um objetivo lógico e prático para que possamos nos engajar na batalha. As crianças e os adolescente não veem mais sentido na memorização de dados, pois o Google está lá durante as 24 horas do dia para nos informar quando aconteceu algo, o que aconteceu e o que dizem significar. Ele nos informa onde está o restaurante mais próximo enquanto nos pergunta sobre o local em que estamos. Ele traduz e calcula. Ele é um Deus, quase igual ao Facebook, no mesmo nível, ou, conjuntamente. Qual o sentido de pensar, criticar, refletir e criar, sendo que a internet nos dá tudo facilmente? Essa é a grande questão.



A escola atravessa um caos, que tem muitas origens, e que está se agravando no cenário político atual. Muitos acontecimentos políticos e culturais denegriram a imagem da escola e do professor, e além disso, empurraram para a escola todas as responsabilidades da educação da nação, não deixando a possibilidade de punição adequada aos infratores e aos que não foram capazes de conseguir êxito nos estudos. Mais uma vez, dentro da lógica, qual o sentido de se esforçar e seguir as regras se, em não se fazer, nada acontece?

O problema é muito complexo para ser debatido nessas poucas linhas, apenas deixo as seguintes questões para que todos possamos refletir:

Por quê a escola não pode proibir o uso dos telefones durante as aulas, sendo que nunca fora antes permitido ao aluno levar qualquer objeto que lhe tirasse atenção?

Por quê crianças e adolescente não podem sofrer punições compatíveis com seus atos, aprendendo que isso é a vida!? (Falo aqui de reprovação, expulsão e outras medidas compatíveis com a conduta do aluno em busca de equilíbrio, justiça e educação para a vida).

Por quê consideramos como algo normal a necessidade absoluta de ficar conectado o tempo todo, como se fôssemos máquinas que precisam ser ligadas na tomada a ponto de não nos importarmos em ver nossos filhos comendo sem tirar os olhos das telas dos celulares, dormindo com eles, andando e olhando para eles, utilizando-os durante as aulas e permanecendo ao nosso lado como zumbis? (Sabemos que é por que também nos tornamos zumbis e isso é mais prazeroso e cômodo.)



A internet pode ser uma arma importante para auxiliar a educação, mas para que se torne um instrumento, é necessário um planejamento, como para todos os outros recursos pedagógicos que forem utilizados.

A verdade é que há muito o que se considerar no caso da educação atual, e toda a ideologia por trás da liberdade individual que culminou no que vemos hoje, a falta de compromisso e comprometimento com o outro. O discurso da liberdade nos levou ao medo de questionar, de estabelecer parâmetros, regras, o medo de parecer radicais e censuradores. Além disso, toda essa "liberdade" nos jogou num mundo de inseguranças, onde nada parece ter consequências ou relevância, onde o outro não importa, e esse é um dos motivos para o que vem acontecendo no mundo, que é a volta do radicalismo e da intolerância em busca da segurança. Como equacionar? Não sei. Mas um bom começo seria tomar para nós mesmos a responsabilidade e a vergonha e abrir mão da alienação sem medo de exigir que quando o aluno estiver dentro da sala de aula, ele esteja na sala de aula e estude. Como pais, deixar de ser preguiçosos e interagir com os nossos filhos ao invés de agradecer a Deus por compartilharem do mesmo vício dos smartphones, nos deixando livres para a escravidão virtual.  Deveríamos exigir que as pessoas tenham horários, prioridades e regras, mas antes de exigir delas, exigir de nós mesmos.


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

As verdades e as mágoas


Viver é difícil. Sobreviver é uma necessidade. Conviver é uma arte, ou uma luta. 

As verdades, sempre as verdades e as certezas! Os filósofos de todos os tempos e de todos os bares se enveredaram pelas discussões sobre "a verdade", e ainda não se decidiram sobre a verdade da verdade. O que é claro, é que cada um possui a sua, e as verdades é que tornam fatos, atitudes, escolhas, mais ou menos toleráveis.

Se existisse uma verdade absoluta, ela já teria se sobreposto às mentiras. Existem escolhas. A única verdade que conheço é que depois que nascemos, iremos morrer algum dia. 

O problema em viver, sobreviver, e sobretudo, conviver, são quando as verdades se chocam, especialmente quando essas verdades são essenciais para a maneira como construímos nossa figura, particular ou publicamente. O problema em conviver é quando o que para nós parece intolerável é algo comum e considerado normal para o outro de nossa convivência.Como conciliar hábitos que se contradizem e se rebatem violentamente sem subjugar as verdades do outro? Como não magoar mortalmente o outro sem abrir mão de nossas verdades? Como conviver diante dos extremos?

Não sei. Você sabe?

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Qual paixão nos move?


Eu penso demais. E nesse pensar demais, racionalizo tudo, até o que não deveria ser racionalizado. Mas, embora pense e racionalize, há situações que fogem às minhas tentativas de controle e me torno só emoção.  Esses momentos são aqueles em que me sinto agredida profundamente e sinto minha dignidade sendo usurpada. Também deixo-me levar pela emoção quando permito a mim mesma entregar-me ao que considero essencial em minha vida. 

Todos possuem seus essenciais, por que deles necessitam para valorar a vida e torná-la plausível. Elegemos nossos deuses sob diversas circunstanciais sociais, pelos exemplos, pelas emoções que nos causam, pelas certezas que nos proporcionam dentro de suas lógicas na sociedade a que pertencemos, pelos rituais que dão a noção de circularidade em nossa existência, a circularidade que nos presenteia com o sentimento de início, meio e fim, de renovação a cada novo ciclo. Talvez, esse seja o meu ponto, não vejo mais a vida em ciclos, mas em uma linha reta.


Para mim, o ano novo não é novo, mas a continuação de algo que começou há muito tempo. O meu aniversário não representa mais um ano de vida e um novo ciclo, apenas me diz que a linha está chegando ao fim. Não espero pelo próximo carnaval para viver novamente como se não houvesse amanhã, nem por um novo título de futebol. Não penso que a semana santa irá renovar a minha fé e salvar-me. Não vejo importância em bailes de formatura, mas ao que será realizado, e ao trabalho que já foi realizado. Comemorações e rituais são importantes? Sim! Todos os dias. Necessitamos pertencer a algo maior, a um grupo;  precisamos de memórias e marcos, ritos de passagem para materializar as mudanças individuais e sociais. Mas a vida é construída a cada segundo. E os segundos não voltam, eles seguem em linha reta.



Paixão e sagrado, dois lados da mesma moeda. Em outras palavras, são os deuses que escolhemos, a quem veneramos e temos como intocáveis. Assim como os exemplos assistidos atualmente nas discussões infinitas, infindáveis e infrutíferas sobre direita e esquerda, podemos também usar diversos exemplos de paixões retratadas pela  religião, o futebol, o ídolo adolescente, o ser amado. Esses são alguns exemplos de deuses intocáveis, sagrados e defendidos com todos os argumentos tidos como racionais e irracionais. Sagrados.


O ser humano pensa demais. Para fugir de sua própria racionalidade, criou guetos para poder ser o ente animal e emocional que nunca deixara de ser. É nesses guetos, defendendo algo que elegeu como parte de sua identidade, que lhe é permitido se transformar, dando vida a algo que fica reprimido no restante do ciclo. O futebol e o carnaval dizem muito sobre isso e sobre o ser humano brasileiro. Cada cultura possui seus subterfúgios, e a nossa possui essas duas grandes válvulas de escape, que trazem sentido para as vidas dos pobres mortais, que sempre esperam pelo novo ciclo, um novo titulo, um novo carnaval. É nesses eventos que se pode agir sem recriminação e ao comando dos instintos, liberar o que fica reprimido pela sociedade.



Eu ainda não sei quais são meus deuses. Luto todos os dias a procura de certezas reconfortantes e que possam me dar a noção de circularidade, que ao fim do ano, novo ano recomeçará cheio de esperanças e que tudo será diferente. Gostaria de ter esperanças de que a morte não é o fim. Gostaria de ser apaixonada por algo a ponto de perder o juízo. Não, queria não. Mas queria ter pequenas paixões diárias, que pudessem alegrar o meu pequeno ciclo de levantar e dormir. Talvez eu já as tenha, na medida em que tento construir o meu dia sorvendo os pequenos acontecimentos. Na verdade, muitas vezes em meu dia sou passional, especialmente quando tocam nos meus pequenos sagrados, que são meu espaço, meu tempo e minha família.



Não me apetece morrer por paixões, embora muitos coloquem todo o sentido da existência na defesa delas, como os patriotas que morrem em guerras, os revolucionários, os homens bomba. A diferença entre o ser humano e o animal (categoria que não exclui o humano) é que ele, o ser humano, racionaliza sua animalidade, usa os instintos racionalmente. Nenhum animal, que eu saiba, morreria por ideais (não importa a natureza do ideal, pois todos possuem o mesmo papel e lugar na vida do indivíduo). Nenhum animal sofreria, ou defenderia um símbolo representativo de um grupo. Interessante pensar que até na suposta irracionalidade há uma razão.


Por fim, extremos são sempre perigosos, porque a certeza gerada por uma paixão traz colada em suas costas a certeza de que os outros deuses não são verdadeiros, dignos, merecedores da mesma sacralidade. Até mesmo a certeza de que não deveriam existir deuses é algo perigoso, na medida em que exclui tudo e deixa nada no lugar. É a certeza do nada contra tudo. O ser humano é simbólico e movido por paixões irracionais e instintos racionais, e essa complexidade, embora seja responsável por grandes destruições, é o que também traz todo o colorido e o sentido para a existência humana.




terça-feira, 22 de agosto de 2017

Depois que fiquei velho




 Recebi nessa manhã essas palavras tão doces de meu querido companheiro, emocionei-me. Obrigada, meu amor, saibas que sou grata por ter te encontrado. Mereço? Sei lá. Espero que sim. Amo- te, Luiz Correa.


Depois que fiquei velho
As palavras me faltam.
Queria eu ser novamente,
Encontrar aquela inocência
Que me fazia acreditar nas palavras.
Aquela que me fazia mostrar-te
O que nunca te mostrei.
E mostrar assim mesmo.
Ter a certeza imaculada de responder-te à altura,
Do que me dizes no dia a dia.
Coisas lindas!
Mais o lindo é pouco, pobre, esparso adjeto.
E até a coisa que te digo “eu te amo”,
Que muito maior é
Do que consigo me expressar!
Não, não, não... Não consigo dizer,
Nem responder-te à altura:
Das surpresas que me proporcionas com teus bilhetes,
Das delícias que permites ao amanhecer
E cujo resultado levas contigo de corpo e alma,
Quando levanta-te exausta para seguir a vida.
Não sem antes me dizer bom dia com aquele bilhete.
Tu és livre.
E eu? Fico tentando mexer nestas palavras inúteis, burocráticas, inertes.
Menores do que sinto verdadeiramente.
Então vou dizer logo:
Amo-te!
Mas saiba  o tanto,  por favor, quando eu te pego em cheiro.
Quando não estou aguentando mais de saudade,
Da vontade dos braços, pernas e pés envoltos aos meus,
Depois daquele beijo que tanto queria te dar.
E aí, quem sabe assim, as palavras ganhariam amplitude.
E voltaria aquela inocência que já não tenho mais
E que só este sentimento infinito me traria de novo.
Você me faz querer ser livre também.
E sou, por certo.
Por que amo-te também.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O pai que quero ao meu lado


Quis escrever alguma coisa falando sobre o "ser pai", mas tudo já foi dito, nas concepções machistas e feministas. Quis falar dos pais que existem hoje, os tradicionais, os fantasmas, os desaparecidos, os presentes, os ausentes, as múmias e os caixa eletrônicos, mas fiquei com preguiça da mesmice. Não quis falar da minha relação com o meu pai, nem sobre o pai dos meus filhos, aceito tudo como parte da humanidade e da cultura, olhei os lados positivos. Não quis falar, também, sobre o meu suposto papel de pai, sou mãe. Preguiça inundou-me mais que antes ao pensar nas apropriações, na exploração da indústria cultural, e todo esse discurso anual. Estamos vivendo um caos interno e mundial, compatível com o eterno ciclo vicioso em que os seres humanos buscam por mais liberdade e depois desejam retornar para a segurança das certezas, quando os radicais se debatem e quando tudo parece mais sombrio e desesperador. Como pensar em celebrações se o mundo parece ir para o fim?

A resposta é que, sim, devemos pensar nas coisas simples e corriqueiras como questões que precisam ser preservadas em meio ao caos, pois é por elas que lutamos e procuramos a estabilidade. É por esse relaxar, valorizar e celebrar, como se tudo não estivesse em ruínas, que desejamos um mundo pacífico e tolerante. Há hora para lutar, mas sempre é hora de valorizar as boas coisas. E é por isso, que agora, só quero escrever esse pequeno poema ao pai mais fofo que já conheci, o  meu marido:

O pai que quero ao meu lado

Quando em teu colo carregas o pequeno
E o sentes como a folha, o sereno,
Sei que há luz no universo!

Quando ensinas as lições que vem da escola
Ou da vida, enquanto jogas bola,
Sinto que é com Deus que converso.

Quando exaltas-te com o maior por um problema,
Mas o abraças ao dizeres, pois, não temas!
Mostras que o amor é tão complexo!

Quando ouves os barulhos e ainda sorris
E com atenção, dizes ao outro, venhas aqui!
Vejo que há côncavo que encontra o convexo.

Quando acordas cedo e fazes o café
E alimentas a quem quer, e a quem não quer,
Adivinho qual a chave do sucesso.

Quando amas, tão forte e intensamente,
Que de saudades, o verde fica dormente,
Que revivas os teus olhos, a Deus, peço.

Tão lindo quanto a chuva que no verão cai!
Pensando em tudo isso, toda a dor se esvai,
Ao saber que ao meu lado vive um verdadeiro pai.


 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Ouro Preto às traças


Ouro Preto é uma cidade de grande valor histórico para o país, pois foi cenário de grandes acontecimentos, sejam lá quais versões aceitas no momento pelos historiadores. Não há como negar que na época da grande exploração aurifera, Ouro Preto teria sido, talvez, a cidade mais importante do Brasil, onde encontravam-se pessoas de todos os lugares do mundo. Havia tanta gente, que a comida era escassa, causando a "grande fome", época em que morreram muitas pessoas por falta de alimento, mas com o ouro na mão.  Imaginem quantos personagens não passearam por estas ruelas geladas, e há relatos de que nevou em Ouro Preto em 19 de junho de 1843! Quantos homens e mulheres escravizados, "gringos", e, posteriormente, artistas e pensadores, não viveram grandes emoções por aqui?.Santos Dumont, Sartre, os modernistas, e tantos, tantos outros, que não há como mencionar. Poetas, de ontem e de hoje, pintores, músicos, fazem parte de todas as famílias da região. Uma cidade que preservou seu conjunto arquitetônico, mas está se esquecendo de sua história.


Há muitas Ouro Pretos. Há a cidade dos estudantes, a dos moradores, a dos turistas, a dos artistas (que, muitas vezes, mistura todas as categorias). Há os eventos anuais, como o carnaval, o Festival de Inverno, O Festival de Cinema, a Semana Santa (hoje um pouco mais "gourmetizada", com diria meu marido). Nos centros histórico, com casas antigas e cheias de problemas, estão localizados os comércios e as moradias dos estudantes da UFOP, além de algumas casas de moradores que vieram de fora e compraram por preços exorbitantes os lares de senhoras que estavam morrendo; há ainda casas de alguns poucos ouropretanos que tiveram a sorte de herdar ou de comprar. Pelos morros e beiradas da cidade, está o povo de verdade. Gente simples, que há pouco tempo conseguiu entrar na universidade da cidade, o que era raro. Gente que tem superstição, que reza terço, faz novena, toca violão, acredita em assombração, pinta, canta, e trabalha para os "caras" que compraram os casarões, como empregados domésticos ou como funcionários de seus comércios. Alguns poucos conseguiram se efetivar na universidade, no IFMG, ou na prefeitura, através de concurso, ou pelo tempo de serviço, na época em que não existia concurso. A maioria dos funcionários das instituições é terceirizada, fica na instituição por 10 horas diárias e ganha um terço do que ganha um funcionário efetivo (viva Temer!). Outros trabalham para as mineradoras, ou, hoje, estão desempregados.


Existia uma guerrinha entre os Jacubas e os Mocotós. A praça era o Morro de Santa Quitéria que separava o Antônio Dias do Pilar. Antônio Dias era dos pobres, que comiam Jacubas, gororobas de fubá e sabe lá quê mais. Os Mocotós, comiam mocotó, viviam no Pilar, e quando se encontravam com os Jacubas, o pau comia. Hoje, a desavença fica por conta dos estudantes e dos nativos, que se bicam de vez em quando por aí, como quando republicas desrespeitam missas e colocam som nas alturas.  Nativo é povão da cidade, nascido e criado.
Sartre em Ouro Preto

Por muito tempo, nativo era excluído e se excluía de muitos dos acontecimentos culturais; esses eram só para a elite, para turista, para estudante, para gente de fora, os forasteiros. Felizmente, nativo, aos poucos, está ocupando seu lugar na cidade, que não é um museu. Existe gente dentro dela! Mas ainda é difícil participar de um festival de vinho, por exemplo, onde uma taça de vinho custa 15 reais. Nessas horas, é melhor se juntar com os estudantes dos alojamentos e encarar um bom Cantininha da Serra na Rua Direita. Ao menos, hoje, isso é possível.
Guignard

Nativo faz artesanato, canta em barzinho, faz universidade (aleluia!), canta no coral, faz personagem na semana santa, faz churrasco e toma umas no fim de semana, além de muitas outras coisas. Porém, nativo ainda não ocupou todos os espaços, visto que Ouro Preto, apesar de ser uma cidade turística, parece uma cidade fantasma nos fins de semana, e esse é o ponto!


Em alguns fins de semana acontece o Corredor cultural no centro, mas isso é raro. O que vemos quando caminhamos pela cidade nesses  outros dias, é o nada. Pouquíssimos bares e restaurantes, e nenhum outro tipo de comércio, isso por que a cidade é essencialmente turística, que ironia. 
Niemeyer em Ouro Preto

Ouro Preto é um tesouro jogado às traças. Nesse fim de semana, fomos ao Parque do Itacolomi para fazer um piquenique, mas o parque não abre fim de semana! Que dia o trabalhador comum poderá visitar o parque? Sem mencionar que fim de semana devem ser os dias em que há mais turistas na cidade. Absurdo! O Horto Botânico, opção maravilhosa para passeios e eventos, mal reabriu e já fechou as portas! E o Morro da Forca? De vez em quando acontece um evento de rock, mas e no restante da existência? Antigamente, era uma opção para sairmos com as crianças, soltar papagaios, fazer piquenique, mas hoje, temos até medo de passar pelo portão. Está totalmente abandonado!

Morro da Forca

Ouro Preto não é só a sede. Distritos que poderiam se integrar mais, ser transformados em alternativas para o turismo, seja ecológico, gastronômico, ou mesmo histórico, estão definhando por falta de recursos. Aparentemente, não existe uma cooperativa para promover o crescimento, não há nenhuma iniciativa da prefeitura.

É triste ver tanto tesouro negligenciado, ainda mais em um período tão triste de nossa história, quando o pessimismo impera. Juntamente com todo esse retrocesso que estamos assistindo passivamente, vem o desânimo de ver que, o que importa é relativo e depende de quem tem as cartas, e quem tem as cartas, é sempre quem sabe jogar e blefar, e não quem fará bom uso do prêmio.

Luar sobre Parador - filme americano gravado em Ouro Preto


Para terminar com um sentimento mais leve, recordo-me de uma passagem que li no livro feijão, angu e couve sobre um forasteiro que visitava nossa cidade lá nas épocas do ouro. Ele se assustou com a escassez de hotéis e com a culinária da época, reclamando da iguaria que chamou de cataplasma de feijão. O tal cataplasma, nada mais era, que o nosso maravilhoso tutu! Será que essa maravilha surgiu em Ouro Preto? Seria apenas mais uma, em meio a tantas que surgem nesse caos. Que das trevas, venha a luz!

Cataplasma de feijão.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Vida acadêmica: Ser ou não ser?

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Quando eu era criança e a professora me perguntou sobre o que eu queria ser quando crescesse, eu disse que gostaria de ser pintora, desenhista, ou escritora, porque gostava de criar coisas para que despertassem emoções em outras pessoas e as fizessem refletir sobre algo. O tempo correu muito rápido, as catástrofes familiares, a imaturidade, a necessidade, afastaram-me por um tempo do mundo do conhecimento. O meu pai gostava de livros, mas em casa, havia poucos exemplares, como compêndios de literatura e livros sobre sexologia que foram ultrapassados há décadas. Sempre fui tímida, e ir até uma biblioteca pública, por exemplo, significava  cruzar o deserto até o inferno de Dante. Não li tudo o que deveria e gostaria, não li os filósofos, só ouvi falar. Apesar de tudo, sinto-me feliz por ter sido a primeira pessoa das famílias materna e paterna a ter entrado em uma universidade. Entrei já casada e com filho pequeno, fui fazer Letras porque gostava de escrever, mas o choque foi grande e me decepcionei com o curso. Novamente, não li tudo o que deveria e gostaria, tudo era confuso e complicado, como se eu tivesse entrado em um teatro no meio de "Vestido de noiva". No tumulto de minha vida, fui desligada no ultimo período por não ter renovado matricula (na época, precisávamos enfrentar uma fila quilométrica para fazer a pré matricula e depois, a matricula), o meu mundo caiu. Depois de algum tempo, fiz novamente o vestibular e passei. A minha vida estava ainda mais tumultuada, emocionalmente desestabilizada, sem base teórica. Tentei literatura, mas não me sentia preparada, fui para a tradução. Gostei, defendi, finalmente, me formei. Escrevi um projeto para o mestrado e cá estou eu.

Dúvidas... Não sei se fui feita para o mundo acadêmico, cheio de regras de ABNT  e de chatice de citação. O que vejo é um desfile de vaidades sem nenhuma descoberta ou inovação, um monte de gente falando a mesma coisa. Não suporto a obrigação de se "produzir" artigos, fabricar textos de colagens para engordar Lattes de lixo repetitivo. Não suporto a obrigação de ter que frequentar rodinhas sociais dos "escolhidos", apresentar qualquer coisa em congressos, feiras, seminários, feitos para discutir as polêmicas de sempre e apresentar pouquíssimas novidades, para constar, de novo,  no Lattes.

Sim, não posso generalizar ou desqualificar a maioria dos mestres e doutores, que trabalham duro e possuem um vasto conhecimento em suas áreas, nem negar que, sem eles, não haveria progresso, seja lá o que possa ser considerado progresso. O problema é comigo, sobre mim e esse universo de gigantes do Olimpo, do qual eu não tenho certeza se quero ou se estou preparada para participar. 

Tenho 40. Meia vida, considerando a hipótese de vida até os 80. Na melhor das alternativas, já vivi a metade de minha sina. Quais as minhas pretensões nessa altura do campeonato?

Eu sonhei em ser uma grande atriz de Hollywood, mas a experiência me fez sentir idiota e ter pavor de sonhar com os Estados Unidos. Sonhei, também, em ser uma grande atriz brasileira, mas o tempo passou e fiquei velha para iniciar nas telas e tinha dois filhos para levar. Sonhei em mudar o mundo, mas nenhum desses malucos conseguiram, Gandhi, Che, Marx, muito menos Jesus, recolho-me à minha insignificância. Já aceitei, não vou ser grande na história mundial, talvez possa ser grande na minha pequena historia. Já é muito.

Bem, Estou em rumo ao desconhecido. A situação do Brasil é pior do que poderia imaginar há alguns anos atrás, parece que entramos no Trem do Terror do parque de diversões, que se transformou na Caverna do Dragão com loopings desanimadores. Andamos às cegas, tateando e procurando um porto seguro, sem ter mais ideais em vista. Sim, ainda sonho em um dia, quem sabe, ser escritora, embora saiba que isso não me levará ao sucesso, considerando o mercado atual e o cenário onde os livros são comprados em metro para decorar casas de gente importante que nunca precisou ler livros. Então, que bosta!

Talvez eu devesse aprender a tática de escrever livrinhos de autoajuda, de historinhas inspiradoras e românticas e colocar o nome de "O caçador de alguma coisa", "A mulher que faz algo", ou "Florescência", sei lá. Deveria começar a fazer muitas piadas ou a xingar no YouTube, ou montar blogs cheios de propagandas e noticias falsas.Talvez eu devesse ganhar na Mega-Sena, e passar os 40 anos viajando pelas terras dos livros de história. É, com certeza, eu deveria ganhar na Mega-Sena.

Mas, como ganhar na Mega-Sena é algo de outro planeta, vou ter que me virar com o que tenho.  Estou no mestrado, algo inimaginável há alguns anos. Não é nem um pouco fácil passar, mas passei e devo honrar o meu lugar. Não me sinto plenamente preparada, mas vou ficar. E seja o que tiver de ser, pois nenhum passo é em falso nessa vida, desde que não fiquemos no mesmo chão. Espero chegar em um bom lugar, em breve. Antes dos meus 80. Com, ou sem ABNT!

Alguns links:

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O lixo no casamento


As garrafas de cerveja, vinho, refrigerante, e as caixas de leite se acumulavam no canto da cozinha, anunciando, ou denunciando uma tarefa a ser feita, uma espera, ou uma função futura. Cláudia não gostava de olhar para elas, até que se atreveu a perguntar ao marido pelo motivo que os tais objetos permaneciam alí, ao invés de terem ido para a lata de lixo há muito.

_Temos que separar o lixo.

Cláudia fez uma cara de "que coisa mais sem lógica", e disse:

_Pra quê essa palhaçada? Aqui não tem coleta seletiva!
_ Mas é o certo, isso é o que todo o mundo deveria fazer sempre.

Cláudia não discordava dos princípios ambientais, da coleta seletiva, pensava que seria uma maravilha se pudesse funcionar em sua cidade, mas não existia a coleta seletiva.

_Isso não tem lógica nenhuma! Tudo vai para o mesmo lugar, isso é um trabalho inútil.
_ Pode até ser, mas eu não vou abrir mão dos meus hábitos por causa disso, todo o mundo deveria agir dessa forma.

Cláudia não discutiu mais e observou o marido guardar os objetos em recipientes separados para o descarte. Uma discussão tão simples como a maneira de lidar com o lixo a levou a refletir sobre a personalidade de ambos.O marido vivia de ideais e seguia-os, mesmo que eles não fizessem sentido imediatamente, mesmo que o trabalho de mantê-los fosse inútil em seu fim. Talvez fosse frutífero na educação dos filhos, uma vez que despertasse neles a curiosidade sobre a consciência ambiental, como aconteceu com a filha ao perguntar sobre o que era coleta seletiva. A esposa, apesar de concordar com os ideais, defendia a prática, a lógica de se realizar um trabalho com alguma finalidade. A finalidade para o marido era ideológica, para a esposa, prática.

O que ensinar para os filhos, manter hábitos cujos ideais sejam nobres, mesmo que esses hábitos não tenham uma lógica na prática cotidiana, ou ensiná-los a sempre questionar a finalidade dos atos dentro do funcionamento de um sistema? Ou, discordando da maneira como o sistema funciona, esses hábitos seriam uma forma de se rebelar contra o mesmo, trabalhando a favor da conscientização de como o sistema supostamente deveria funcionar, possibilitando que os filhos possam criar maneiras futuras de se rebelarem e promoverem mudanças?

Cláudia não se conformava com hábitos sem lógica prática. Outro dia foi a vez de discutir com os amigos sobre a validade da tal taxa de desperdício. Os amigos tentavam justificar a medida de qualquer forma, seja no plano da consciência social, ou seja na lógica dos gastos do comerciante ao ter que preparar mais uma vez  uma comida que você jogou fora. Simplesmente, Cláudia não via sentido em ter que pagar novamente por uma coisa que a pessoa já havia pago. A lógica era totalmente capitalista, ou seja, você paga por um produto, e se não quiser usá-lo inteiramente, você tem que ser punido e pagar mais ainda por ele. Quem está ganhando além do comerciante? Não me venha com consciência social! Gritava. Consciência social seria inventar formas de doar os alimentos que sobravam por não terem sido consumidos (comprados) para quem não tinha nada para comer, e não enriquecer comerciante!

Cláudia era prática, Celso era idealista. Eles se complementavam, mais do que se irritavam com a maneira de enxergar o mundo, por que, na verdade, ambos nutriam os mesmos ideais, apenas vivenciavam a realidade de maneiras diferentes. Afinal, por que brigar sobre a maneira como o lixo será descartado, quando o que importa é a maneira que querem construir o  mundo juntos?

E você, como descarta o seu lixo?

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