quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Sobre a vida e sobre a morte



Há nove meses a minha irmã havia se divertido como nunca em um sítio, com o marido, o filho e familiares, antes de voltarem para a casa. Depois de um fim de semana intenso, tudo o que devia querer seria chegar em casa logo, tomar um banho e esticar o corpo na cama. Estava ansiosa e feliz, havia conseguido uma vaga em uma boa escola para o menino, iria começar um novo período em sua vida. A sua casa, que ajudou o seu marido a construir, estava ficando um brinco, do jeito que sonharam há muitos anos. Pelo chão, estavam as latas de tinta a espera da finalização. Planejava construir uma casinha no campo para passar os fins de semana com a família. A última vez que a vi, estava feliz, havia pintado e cortado os cabelos. Ela não suspeitava que não chegaria em casa nunca mais... Talvez, a sua última visão tenha sido a de seu marido ensanguentado dentro do carro, e a sua última preocupação, a de que seu filho de cinco anos estivesse bem. Ela não chegou, nem tampouco, o seu marido.

Ainda não entendo o que aconteceu e nem creio. A vida não é absolutamente nada, nossa existência é como uma brisa. 

As pessoas gastam seu tempo se perguntando o porquê de tudo, procurando um sentido para esse vir e porvir, para cada amanhecer, cada hábito adquirido e cada necessidade; as pessoas colocam valores em situações, acontecimentos, coisas, pessoas, e isso é o que lhes dá sentido. Cada um tem o seu sentido.

Eu elegi alguns sentidos para a minha curta existência.

Quando eu era criança, sonhava em ser uma atriz famosa. Fui crescendo e a necessidade de fama se transformou em necessidade de comover, dizer algo que pudesse fazer algum sentido para as outras pessoas. Desejo ser útil.

Não quero ser mártir, não é importante que o meu nome ecoe pelos tempos, não estarei lá. Não quero ser revolucionária, não acredito em causas que sempre se tornam particulares. Na minha particularidade, elejo a mim mesma e a minha vida como prioridades, isso inclui os que amo.

Não abro mão de bons momentos, de conforto, de beleza. Não abro mão de poder me colocar no lugar do outro e ser solidária, da maneira que for capaz. Mas a minha vida pertence a mim, e é a mim que devo satisfações, a quem devo agradecimentos ou queixas. Apenas eu estarei comigo do inicio ao fim. 

Não me importo que os outros usem meu nome de maneira menos ou mais digna. O que sou para o mundo depende de muitos fatores, que não pertencem a mim, mas pertencem ao mundo que os criou. A maneira como os outros me veem está cercada de condições. Como mulher, o meu valor passa por diversos crivos sociais, desde o meu estado civil até o tamanho de minha roupa. Não posso me guiar por estes parâmetros, nem tampouco devo me envaidecer por conquistas, que muitos outros já tiveram, nem por palavras ou títulos, que me venham acariciar de tempos em tempos. Tudo muda, o tempo todo, e eu continuarei comigo, os outros, não.

Quero que no fim, mesmo que eu não saiba que seja este o fim, eu saiba que eu fui eu mesma, uma mulher, um ser humano, que simplesmente viveu da melhor maneira possível. Quero ter sido útil, mas não me importo muito se o meu nome será escrito na pedra. Quero os sorrisos de verdade, as lágrimas de verdade, as lutas, as derrotas e as vitórias. Quero ter sentido todos os cheiros e sabores possíveis. Quero ter amado da melhor forma que pude. Desejo não ter desperdiçado os meus segundo e horas de vida com nada que não seja de verdade e útil (qualquer tipo de utilidade, mesmo a de relaxamento total).

Se a minha hora for agora, não quero me arrepender de nada. Só quero aproveitar a vida que Deus, ou seja lá quem, me deu. Essa vida que eu acho que tenho agora, de ir, vir e porvir, de escolhas, decisões, responsabilidades, de sorrisos, lágrimas e abraços. Quero ser de verdade enquanto me for possível ser, enquanto o mundo for "humano". Não serei falsa. Quero ser grata. Mesmo que chata.






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