quinta-feira, 23 de junho de 2016

É essa a minha identidade brasileira?


O Brasil é um país que por muito tempo se sustentou por mitos: O mito da alegria, da fraternidade, da tolerância, da aceitação das multiplicidades, e por este sentido correm longe as lendas da utópica Terra Brazilis. Outras características, também muito aclamadas, mas não tão positivas, falam sobre o caráter do povo, eternizado e glorificado em um dos personagens de nossa história, o Zé Carioca, assim como  o malandro do Rio, e como tantos malandros representados e aclamados pelos cinemas nacional e internacional, que formataram, modelaram a personalidade recém nascida e já decadente de uma nação. 

Parece que tudo em nossa "nação" foi fabricado para ser como tal, até mesmo as representações populares mais legítimas se transformaram em produto e arma de manipulação. Vejamos a paixão insana da maioria dos brasileiros por futebol, por exemplo. A  midia, criada, e usada, acima de tudo, e antes de tudo, como arma de manipulação, foi a grande orquestradora e construtora das paixões, assim como do perfil do povo. Em uma época em que nem todos possuíam uma televisão em suas casas, o cinema mostrava, antes dos filmes, os melhores lances do futebol, divulgando, solidificando e naturalizando um amor pelo esporte. Dê ao povo algo com que se preocupar e não nos preocuparemos com o povo.  

O carnaval, nascido do tal entrudo, brincadeira muito parecida com tantas outras de tantas culturas, que servem para a socialização, para a renovação espiritual, para nos oferecer uma perspectiva cíclica de eterno recomeçar, de exorcismo de nós mesmos, também sofreu grandes mudanças e se transformou, dentre tantas outras coisas, em uma nova paixão, pelas escolas de samba do Rio, principalmente, paixão que foi divulgada e santificada para outros estados através da nossa querida televisão.

Para exportação, a mulher brasileira, ou melhor, a mulata. Como sexo é o que move o mundo, especialmente, os homens (não sei afirmar se é algo genético ou cultural), o apelo para tudo o que se refere ao sexo é grande, mas isso ocorre em todo o planeta. Terra. Porém, alguém decidiu que a mulher brasileira, a mulata, seria um bom produto e uma boa imagem para representar o país, e essa ideia está tão enraizada, que recentemente, uma cerveja teve o disparate de usar o seguinte slogan em sua propaganda: É pelo corpo que se conhece a verdadeira negra - comparando as qualidades da cerveja preta com as qualidades de uma mulata. Isso só prova que, mesmo que inconscientemente, os ideais plantados e insistentemente divulgados ainda estão presentes em nossa maneira de ver o mundo. Percebemos isso, também, quando elogiando alguém que já sabe preparar um macarrão instantâneo, dizemos que esta pessoa já pode se casar. Tais dizeres arraigados em nossa cultura e até hoje proferidos naturalmente, nos falam sobre nossa maneira de ver e de entender os lugares e as funções dos gêneros, assim como seus valores dentro de nossa sociedade ainda patriarcal.

Alinhavando tudo isso, vem o cristalizado "jeitinho brasileiro", que nós todos já aceitamos como sendo verdade. A tal Lei de Gérson (essa midia é só derrota), veio para ilustrar ou para ajudar a consolidar essa visão derrotista, ou malandrista de nós mesmos (não sou Guimarães Rosa, mas gosto de inventar). O orgulho por levar vantagem em qualquer circunstância, mesmo que para isso, os outros saiam prejudicados, faz parte de nossa cultura.


Porém, muitos destes mitos estão caindo, e outros, ao contrário, estão se tornando cada vez mais reais. A televisão deixou de ser a verdade absoluta, a internet deu voz e poder a todos. No inicio da era tecnológica,  o povo não tinha a capacidade reflexiva de entender as intenções que poderiam estar por trás de cada programação e cada tema abordado, a audiência tinha como verdade tudo o que as midias diziam ser, não havia uma consciência reflexiva sobre os interesses. O mito, este verdadeiro, da imparcialidade jornalística, dava maior legitimidade aos órgãos que possuíam o poder de transmitir o que julgavam importante. Mas a verdade é que quase não existe imparcialidade quando alguém narra algo, tudo o que dizemos está sob o nosso ponto de vista e adornado por nossas convicções.



O que quero dizer com tudo isso, é que o Brasil se fez, tal como é, através de muitas coisas, mas a mais importante delas, é a mídia brasileira. Isso quer dizer que que, por muito tempo, e ainda hoje, a mídia (rádio, jornais, revistas e, principalmente, TV), foi uma das maiores detentoras de poder (isso não acontece apenas no Brasil, obviamente), quem formatou tudo, desde o nosso perfil nacional, até quem nós decidimos votar. Podemos dizer, então, que existem 5 poderes: Legislativo, executivo, judiciário, mídia e capitalistas (ainda não encontrei uma definição satisfatória). 


Infelizmente, na política, assim como em nossa formação cultural, a corrupção é algo visto como normal e aceitável, em todos os níveis. Infelizmente para nós, que sonhamos com uma sociedade onde exista paz e satisfação pessoal, em que não precisemos priorizar tudo antes e além de nosso bem viver, e sabemos que isso só é possível onde as desigualdades sejam as menores possíveis. O bem estar social só será possível em um local em que cada indivíduo se sinta pertencente de um todo, em um mesmo nível, em que todos possam ser livres para se expressarem, mas que respeitem também as individualidades dos outros e as regras sociais (que nunca deveriam ser estáticas e rígidas). Jeitinho brasileiro não faz parte de uma sociedade em que todos merecem, mas é essencial para uma sociedade onde apenas alguns privilegiados são dignos de tudo.

 Ainda sobre os poderes, o que está no topo, ditando as regras, são os capitalistas, ou seja, os grandessíssimos empresários, latifundiários, e qualquer outro que possua  o poder do capital. Todos os outros poderes estão subordinados a este. Os poderes são compostos por indivíduos, seres humanos, que possuem suas ambições e fragilidades; em um país/cultura, onde a corrupção é algo natural, dificilmente alguém que se recuse a fazer parte desse esquema permanecerá no poder. Não é difícil de imaginar que alguns poucos que possuem ideais sociais se corrompam ou sucumbam diante do monstro da máquina do capitalismo. 


O capitalismo, nada mais é que um sistema onde o que interessa é apenas o lucro, ou seja, quem possui o poder do capital apenas deseja perpetuar-se nessa condição, aumentando cada vez mais os seus poderes. E o poder do capital é todo o poder. Embora idealizemos uma sociedade justa e igualitária, sabemos que a questão do poder, desde sempre, foi matéria e causa de grandes tragédias, e que poucos governantes tinham como foco principal o bem estar de seu povo; o foco, na maioria das vezes, sempre foi pessoal. O sistema é corrupto desde as bases, dificilmente algum candidato "limpo" conseguirá galgar até o poder maior do executivo, pois assim é o sistema, assim é o círculo vicioso de interesses.


Hoje, quem define tudo é o capitalista. ele controla a mídia, quando não é dono dela, é ele quem manipula e formata a população. O capitalista não quer acabar com as desigualdades e criar uma sociedade justa e igualitária, o capitalista quer permanecer com todos os seus privilégios, os mesmos que eram doados por Deus aos reis, antes do capitalismo. O capitalista esta se fodendo para o povo, e só quer fazer dele sua mão de obra e seu consumidor, e para isso precisa criar táticas para convencê-lo de que ele precisa de tudo o que o capitalismo possa oferecer.


Hoje estão caindo as máscaras. As pessoas que estão por cima e se beneficiando do sistema capitalista, assim como os reis e nobres, assim como todos os que sempre possuíram o poder, não querem perder ou distribuir os benefícios e privilégios que possuem. Podemos perceber claramente como, ferozmente, as pessoas que fazem parte da elite brasileira bradam contra tudo o que venha ameaçar esse estado de privilégio, e como odeiam tudo e todos que não pertençam à esfera restrita e imaginária de superioridade a que ele pensam pertencer. Hoje podemos ver claramente o ódio de classes, o racismo escancarado, a misoginia, a violência dos que não querem perder um espaço que pensam possuir. Podemos ver de onde surgiram todos esses mitos e essas paixões alienantes, que pretendiam manter o povo em seu lugar, supondo que para ele, não haveria nada mais e que a diferença social seria algo natural e divino. Hoje podemos ver quem é que manda em tudo e sempre  mandou, quem é que colocou cada um no lugar em que está. São exatamente aquelas pessoas de pele clara, que sempre estiveram naquele lugar privilegiado; são aquelas pessoas que não são povo.  Hoje podemos ver o Brasil como ele é, um país onde uma minoria, que sempre esteve no poder e sempre ditou as regras formatando nossa identidade falida, espalha o seu ódio por onde passa, sem argumentos, apenas com a violência e a destruição.

Antes do terminar: Fora, Temer!



terça-feira, 21 de junho de 2016

Personagens de Ouro Preto - 5 - Raimundo Bichão

Há algum tempo, passeava pelas ruas um senhor negro, de corpo avantajado, roupas sujas e barba por fazer, assim como tantos outros personagens maluquetes que sobem e descem as ladeiras, sem rumo nenhum, apenas por vontade de se deslocar, na falta de ofício de gente "normal". Chamavam-no de Bichão, creio que por causa de sua aparência desleixada e trajes fedorentos. Certa vez, passou a andar com a cabeça torta, um eterno torcicolo, incurável, ninguém sabe por que, ou como. Sempre olhando para o céu, na lateral. Pensei que aquelas fuças nunca mais voltariam ao normal, mas eis que um dia, sem mais nem menos, o vejo com a cabeça direitinha por cima dos ombros! Não sei que ziguezira aconteceu, mas ele estava normalzinho, como Deus o fez. 

Bem, faz tempo que não o vejo, nem com a cabeça direita, nem com ela torta... Suponho que já tenha partido para outros planos. Fique em paz, Bichão!

 

Ciúmes

Ele não a ama, mas a foto ainda está lá,
Mostrando o que foi, e queria ter sido,
Mas, não mais será.

Ele não ama a outra, mas ainda persistem
As palavras e doces apelidos
Que se riem e insistem.

Tantos são os "amores queridos",
Que sou mais um "amor querido"
Entre todas as queridas do mundo.

Um amor que, não dando certo,
Saem os pares de perto
Mesmo se dizendo "profundo".

De tanto amar, perco a razão
Mesmo estando com ela
Dentro de minhas mãos.

De tanta razão, perdes o tato
E não vês a sequela
Que advém  de cada fato.

Perdendo-me, perco tudo,
A paz, a razão, a sanidade, 
Sem fazer mistério.

Amando-me, esqueces tudo,
mas não esqueças a verdade,
E o critério.






sábado, 11 de junho de 2016

Personagens de Ouro Preto - 4 - A vizinha da falazada




Vizinhança é sempre algo complicado, pois,  a não ser que você more em uma ilha deserta, ou em um condomínio super luxuoso  com vários metros de propriedade, você terá que lidar com esse problema social que, muitas vezes, destrói amizades, sanidades e propriedades.

Em um local místico da cidade, onde a neblina mora, existe uma vizinha conhecida até por não vizinhos, pois sua voz é audível há quilômetros (permitam-me o recurso hiperbólico, novamente). Os que mais sofriam, obviamente, eram os vizinhos mais próximos. A metralhadora de palavras incompreensíveis disparava logo pela manhã, bem manhã, lá pelas seis. Alguma coisa acionava o gatilho e a mulher começava a falar com aquela voz grave, palavra em cima de palavra, em uma altura que incomodava até mesmo os passageiros dos ônibus que passavam pela rua. Os assuntos, só Deus sabia, apenas era possível compreender algumas poucas expressões, como "conta de luz", "cadeia", "cu", "fedaputa", "traficante" e outras de nível parecido. Se fosse apenas a voz escandalosa, não estaria bem coisa nenhuma, mas além disso, o povo da casa tinha uma caixa de som que colocava no quintal, no último volume, o dia todo. Além desse além, o repertório ia de música gospel, pulando imediatamente para os funks mais rastejantes, como aquele que imita a música de Alceu Valença: "Morena tropicana, eu vou falar pra tu, eu quero cu". O que fazer com uma vizinha dessa, que polícia não é ameaça e amor e respeito ao próximo não são noções conhecidas? Se é um maluco com uma arma, eu juro que seria possível, num momento de insanidade madrugal, acertar um tiro nas fuças dela, mas se é um cidadão normal, a solução é se mudar e torcer para que o próximo nativo, ao menos, tenha um gosto musical melhor.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Personagens de Ouro Preto - 3 - A Volta do Vento


Hoje o personagem de Ouro Preto não é uma pessoa, mas um local. Os que não estão familiarizados com as histórias e a nominação do lugar, acham o nome poético, mas tendem a trocar as bolas, chamando-o de Rota dos Ventos, Curva dos Ventos e similares. Quem imagina, ao ouvir tais denominações, que o lugar se trata de um exemplo de expressão romântica divina, se decepciona ao saber dos acontecimentos que marcaram a história e a memória do povo. Poético, podemos dizer que é, pois o trágico, a dor e a angústia são matérias mais ricas para os poetas, e mais admiradas pelos (raríssimos) consumidores de poesia, porém, não há arco-íris na situação. 

A Volta do Vento é uma estrada abismenta que sai da Barra e vai parar lá em Saramenha. Não seria nada de espetacular, se não fossem o número de acidentes, e, principalmente, o número de suicídios acontecidos no local. Eu perdi a conta na minha curta e avoada memória de quantos suicídios tive notícia desde que me mudei para a cidade. Geralmente, na maioria dos casos, a motivação é um caso de amor mal-sucedido. Lembro-me de uma moça que foi até lá e, dizem, que ligou para o namorado antes de pular do precipício, se jogando em seguida, para que ele sofresse com o ocorrido. Um rapaz, depois de brigar com um amigo por quem era apaixonado, ameaçou-o e se matou lá. Um outro, depois de surtar e dar marteladas na cabeça da proprietária da casa onde morava, pulou da Volta e só foi encontrado depois de muitos dias. São tantos os casos, mas creio que não há registros oficiais, talvez, como sempre, na tentativa de camuflar fatos que possam repercutir negativamente, prejudicando o nome da cidade. Aliás, tentativa de suicídio é uma das coisas mais comuns por aqui. Eu conheço umas 40 pessoas que já tentaram se matar com medicamentos diversos, e não conheci meus avôs porque ambos se suicidaram. É uma história triste, mas que deveria ser investigada, e não camuflada, jogada para debaixo da vegetação da Volta dos Ventos.

terça-feira, 7 de junho de 2016

O dono do mundo



Imagine que alguém inventasse uma maneira de coletar dados sobre todas as pessoas do mundo, saber a que horas elas acordam, dormem, onde vivem, onde estudam e trabalham, onde vão aos fins de semana e com quem falam. Imagine se esse alguém soubesse de todas as suas conversas com todos os seus amigos, desde as mais inocentes até as mais pecaminosas; imagine se essa pessoa pudesse identificar qualquer um, em qualquer parte do mundo, apenas pelas características matemáticas faciais do indivíduo. Imagine se esse ser todo poderoso soubesse quem são seus filhos, quais suas inclinações políticas, seus medos, seus desejos e anseios mais íntimos. Imagine que todo esse conhecimento fosse oferecido de graça ao senhor todo poderoso, em troca de prazeres instantâneos e momentâneos, de bom grado, através de uma magia capaz de segurar por todos os lados aquele que quisesse se libertar. Imagine o poder que o detentor de todos esses dados teria... Seria o dono do mundo! Ele poderia manipular cada um, ou cada sociedade, ele poderia ameaçar publicar todos os seus segredos mais íntimos, criar as mais eficientes formas de chantagem e de tortura, controlar o mercado, a política, manipular e dirigir a tudo e a todos. Esse cara já existe:

Mark Zuckerberg 





segunda-feira, 6 de junho de 2016

Dia de fúria



Há dias em que sou doce, "meu mel não diga adeus", e há dias em que sou uma leoa, como os meus irmãos me chamavam na infância, apesar de estarem se referindo ao cabelo. Há dias em que não ligo, mas há dias em que o não ligado torna-se insuportável e urge por uma resolução. Há dias em que deixo pra lá, mas há dias em que nada escapa. Há dias em que, mesmo sem ter o hábito, tenho vontade de esbravejar os mais terríveis palavrões e mandar todo o mundo ir se foder, e que se fodam se estiverem se fodendo para essa expressão. Mas odeio palavrões. 

Há dias em que aguardo pacificamente, mas há dias em que não quero. Há dias em que quero fazer o que deveria ter feito, e o caldo engrossa. Há dias em que a verdade se torna mais verdadeira e cortante, e não quer ficar guardada. Há dias em que sei o que pode ou não destruir, e não quero fingir que não sei. Há dias em que não posso ser doce, pois vomito todo o amargo que estava se decantando silenciosamente. Há dias em que a discrição e a polidez não me interessam e desejo que se exploda tudo e todos, tudo o que me faz mal, machuca e maltrata, e todos os que me prejudicam de alguma forma, principalmente os manipuladores, descarados, desrespeitosos, sem-vergonha e psicopatas. Que se fodam.

Há dias em que prefiro me ausentar, mesmo que na solidão, que permitir que outros interfiram em minhas escolhas, minha intimidade. Fodam-se. Que o inferno seja pouco para vocês. A não ser que vão viver suas vidas pacificamente, desta forma, estarei me fodendo por seus destinos. Cambada de zumbis!

Há dias em que sou boazinha, mas há dias que, não. Chamem de TPM, ou o escambau, eu chamo de verdade e saco cheio. Porque há dias em que as futilidades e o desrespeito humanos não podem ser ignorados.  Isso se chama  To Puta com essa Merda. Chega.

Personagens de Ouro Preto - 2 - O homem e seu smartphone


Esse é mais um dos personagens peculiares, reais ou imaginários, que povoam a nossa mística e mofada Ouro Preto. Subindo por estas ladeiras destes morros, onde vive a maioria dos nativos (como se autodenominam os nascidos em Ouro Preto), existem diversos personagens que se destacam. Este homem, em particular, já com mais de seus 40 anos, sempre no mesmo horário, saía de casa carregando seu smartphone. Um homem comum, de cabelos já grisalhos e seus óculos que lhe conferiam um ar de "nerdice". Quem o percebia, não percebia que por trás daquele ato comum poderia haver algo além do comum (ou não). Porém, não conseguia achar sentido para que ele saísse de casa e ficasse perambulando por alí, ou sentado em uma meia calçada barulhenta e nada confortável. Um dia passei por ele e percebi que ele parecia conversar com uma mulher. No início, pensei que estivesse assistindo a algum filme, não entendi muito bem. Por que estaria conversando com alguém naquele local, ainda em viva voz? Porém, que se danasse, não era da minha conta. Várias vezes o vi por ali, carregando com afinco o seu celular. Lembrei-me de quando o celular servia de apoio à minha relação amorosa e de como ele era personificado, precioso na substituição do amado ou como canal para ele. 

Um dia, estava a pé pelas ruas e vi que ele estava sentado com o celular. Quando ele me viu, disse ao celular: "Espere aí". Só que a mulher não esperou. Infelizmente, tive que ouvir uma frase, algo como: "_ Hummm, que gostoso!" What the fuck? O cara estava tendo uma conversa sexual, em viva voz, no meio da rua? Em que mundo estamos? (isso é só uma reação hiperbólica de efeito, não me abismei tanto assim).

Bem, só pude tirar uma conclusão sobre este fato: O senhor deve ser casado e, para despistar, fica ali mesmo nas redondezas, porque não pode ficar papeando com uma mulher dentro de casa. Apenas não consegui entender  o motivo pelo qual ele não podia usar um fone de ouvido. 

Cuidado com os nerds e desconfie sempre de uma paixão por um smartphone.

Quem conta um conto aumenta, mas não inventa.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Personagens de Ouro Preto -1 - A solitária da Rua Direita

 



Não digo se é verdade ou se é mentira, mas nos tempos de minha adolescência, e já se vão uns 20 anos, embora eu me considere sempre com 18 (é o que digo aos filhos), os jovens não tinham muitas opções a não ser se dirigirem para a Rua Direita, que fica n centro da cidade, e ficarem observando o ir e vir de pessoas. Naquele tempo, quase ninguém tinha telefone em casa, não preciso nem dizer que não existia celular, portanto, se você estivesse interessado em alguém que havia encontrado na Rua Direita, a única forma de manter ou criar uma relação era ir para a mesma rua na semana seguinte, com a esperança de reencontrar a pessoa por quem estivesse interessado. Era um sobe e desse sem sentido, pessoas encostadas pelos carros, nas paredes, em frente ao Bar Barroco, e só. Nós sempre saíamos em grupo, mas havia uma mulher enigmática que sempre saía só. Ela tinha um olhar estranho, e um penteado que lembrava aqueles moldados por rolinhos dos anos 80. Ela subia e descia, solitária, todos os fins de semana, sempre. Andava devagar, não falava com ninguém, não conhecia ninguém. Outro dia, saí com o meu marido no sábado e passei pela Rua Direita. O movimento ainda existe, mas não é o mesmo de 20 anos atrás. Comecei a me lembrar da Solitária da Rua Direita, e pensar sobre aquela vida, aquele ser solitário que  subia e descia todos os fins de semana, sem rumo, em seu rumo arrumado. Pois, eis que a vejo, com os mesmos cabelos retrógrados e alguns quilinhos a mais, subindo e descendo, como sempre fizera há 20 anos. A solitária continua solitária. Senti como se aquela vida não tivesse significado. Imaginei se em algum momento se casara, se algum dia, tivera um companheiro para subir e descer, ou se o tempo apenas havia passado por ela, sem que ela percebesse. Aconteceram tantas coisas em minha vida, e ela continua lá, solitária na Rua Direita.

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