quarta-feira, 27 de abril de 2016

Duas estrelas no céu

Assim que me lembrarei de vocês, alegres, divertidos e lindos.

Na sala, estavam latas novas de tinta que haviam sido compradas para terminar a casa, tão caprichosa, que ele fez com suas próprias mãos, depois do trabalho duro nas construções e nos dias de folga. Sempre trabalhando, trabalho árduo de marceneiro, de vez em quando se dava ao luxo de uma viagem para Porto Seguro ou para algum sítio com os familiares, os que sempre ajudava, sem pensar duas vezes. Assim, também me salvou, tantas vezes, dos trabalhos ditos "masculinos". Ajudou a construir o meu telhado, sem o qual, talvez, minha casa tivesse desmoronado. 

No canto da sala, ainda embaladas, estavam as mesas e as cadeiras novas que a minha irmã havia comprado para completar a casa. O cheiro da madeira que ele havia colocado na parede para instalar a TV exalava forte, um perfume que não sabia dizer se realmente vinha da madeira, ou de flores do além. A cozinha estava vazia, cozinha que tantas vezes tomei um café em pé, com uma broa feita por minha irmã. Ela não estava mais lá. Subi para ver o banheiro do segundo andar, não sabia que estava pronto. Cheirava a novo, lindo, louça preta e branca, um capricho. Vi as coisinhas, todas arrumadinhas, as lembranças. Eles não estavam mais lá. Peguei a casinha do cachorrinho, o que me veio de herança, e saí daquela casa que não era a mesma.

Os olhos dele olhavam, mas nada viam. Parecia ouvir, mas não sei se ouvia. Ele não estava lá. Onde estava aquele jeito reclamão, ciumento e carrancudo, mas ao mesmo tempo, doce, amável, divertido e amigo?  Por que não saía daquela cama e ia dançar funk, axé, ou cantar aquelas músicas irritantes que cantava com a minha irmã? Por que não vinha carregar seu filho, jogá-lo para cima, como sempre? Já não bastava a ausência dela, agora a sua?

Por que vocês dois, que tinham tantos planos, tanta vida, tantos anos por viver, de repente, não estão mais aqui? Pessoas simples, humanas, bondosas, por quê?

Não terminaram a casa, não construíram o sítio, não viajaram por outras praias, não verão seu filho crescer... Se foram. Para onde, eu não sei. Eu sei apenas que a alegria e o amor deles eram verdadeiros, e sei que a presença deles aqui não foi em vão. Fiquem em paz, onde quer que estejam, e tenham a certeza de que podem ter orgulho do que representam para todos nós.


terça-feira, 26 de abril de 2016

A eterna mesmice do EU caótico em construção


O mundo nunca é o mesmo, mas o ser humano é, sempre foi e sempre será. O ser humano sempre terá os mesmos medos, os mesmos anseios, as mesmas ambições e sempre usará dos mesmos artifícios para se sobressair e conseguir o que almeja. Eu sou uma Maria Ninguém, e não tenho legitimidade para explanar sobre qualquer assunto, nem sou filosofa consagrada para traçar esboços teóricos, muito menos socióloga, para analisar relações e espaços. Eu sou apenas mais uma observadora das fraquezas humanas, alguém que aprendeu a decifrar pequenos gestos, olhares, palavras e silêncios. Sou alguém que muitos julgavam possuir algum tipo de sexto sentido, e muitos tentaram evitar. Mas às vezes, eu sei. Muitas vezes, não sei de mim.

A história é dialética, como dizem, é cíclica, e assim o é porque os seres, que são os atores da história, podem viver em locais diferentes, assim como em épocas distintas, podem estar rodeados por tecnologias diversas, podem ter livros, conhecimento, podem ser considerados mais ou menos avançados, selvagens, primitivos ou modernos, mas todos eles possuem as mesmas fraquezas; assim é porque, desde que nasce, o ser humano precisa aprender do zero a como se relacionar com os seres e com o ambiente que o cerca, precisa descobrir  ele mesmo no caos que o seu EU, ainda indefinido pelo escasso apoderamento dos conceitos e vivencias externas, se apresenta para si e para os outros. Assim, construindo sua identidade no mundo das relações, seja lá que mundo for este, ele luta o tempo todo com tudo, todos e consigo mesmo, procurando identificar uma faceta que talvez se enquadre melhor no mundo que ele quer construir para si. Esse querer também é construindo pelas experiências, pelo que lhe é direcionado como ideal de acordo com cada conceito de felicidade. Sendo assim, este conceito de felicidade é algo fundamental para a construção da identidade pessoal, assim como a identidade da sociedade que adota esse conceito. Esse conceito formará uma geração específica de indivíduos com ideologias e características semelhantes. 

O conceito de felicidade parece mudar de tempos em tempos,  ele molda épocas e direciona movimentos sociais; Felicidade, de acordo com o dicionário, é um estado de bem aventurança, bem estar, bom êxito. Todos os seres humanos sempre querem se sentir bem aventurados e ter bom êxito, mas o significado  de ser bem aventurado e ter bom exito possui variantes.

Há tempos atrás, ser feliz significava possuir alimento, em outros tempos, o ideal era ser digno de se conquistar um lugar no céu, possuir terras, ter uma boa colheita, conquistar a liberdade, ter honra, possuir bens, vivenciar prazeres ditos mundanos, ser reconhecido intelectualmente, ter paz, e a lista segue distinguindo as épocas e os locais. A felicidade almejada é individual, mas é também coletiva, pois faz parte de um contrato acordado nas relações sociais. É esse conceito social dominante em determinada época e local que direciona os indivíduos para este ou aquele lado, que os move, que os faz ser o que são, humanos sempre em luta pela felicidade almejada. Nessa luta pela tal felicidade, os seres humanos cometem os mesmos atos, os mesmos erros, travam as mesmas lutas, de acordo com a evolução da construção do caos do seu EU, que é individual e gradual. Possuindo diferentes níveis de "evolução", esse EU  se encontra com outros "EUs" em semelhantes níveis de aspirações e de complexidade e se unem em busca do que têm como conceito de felicidade. O "NÓS" caótico dessa união desconhece a legitimidade de todos os outros NÓS, e desqualifica a mesma luta que possui o mesmo objetivo, mas não possui o mesmo objeto. Assim, as lutas, as vitórias e os erros se repetem dentro da histórias, esteja o indivíduo num feudo ou em uma grande metrópole moderna.

Eu não queria escrever nada disso, inicialmente, mas isso estava latente. É o meu EU caótico, cada vez mais caótico, me direcionando para um direção indefinida, que no fim, deságua em algum lugar.


LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...