quarta-feira, 29 de abril de 2015

Onde estão nossos valores?


Ensinar valores se transformou em sinonimo de cafonice, retrocesso, obsolescência, assim como tudo o que tem relação com formação social das pessoas, assim também como as velhas aulas de etiqueta. Falar em honra, no sentido nipônico, falar em honestidade, caridade, amor ao próximo, parece ser falar sobre algo relegado apenas aos grandes nomes da história, como madre Tereza de Calcutá e Gandhi, que também teve alguns caroços tirados debaixo do seu angu.

No Brasil dos "Revoltados online" de hoje, estamos assistindo a uma grande miscelânea de palavrórios, opiniões ao léu, baseadas em notícias metralhadas pela mídia e das quais não sabemos se novas, verdadeiras ou imparciais, assim como não sabemos do histórico das situações que julgamos, resumindo, estamos num labirinto achando que estamos cientes de tudo o que acontece no mundo inteiro. Assistir televisão ou navegar pela internet é tomar doses cavalares de ignorância, violência gratuita, agressividade indiscriminada, idiotice explicita e valores totalmente egocêntricos. 

Parecendo uma anciã em minha fala, na minha época, havia alguém que sempre se preocupava em nos ensinar o que era bom e o que era ruim, assim como ser verdadeiro, honesto, e tratar os outros com o mesmo respeito e educação com os quais gostaríamos de sermos tratados. Diziam que dinheiro não trazia felicidade e que o importante era amar a todos, sem distinção.  Tudo isso parece uma idealização ultrapassada sobre a condição humana e suas relações, mas havia um tempo em que eu acreditava nisso, acreditava que as pessoas eram essencialmente boas, na minha concepção de bondade; O bom ou o ruim, o justo, o certo e o errado, são conceitos complexos criados pela cultura e as necessidades sociais, mas há algo que pertence a todo o ser humano que é o sentimento de bem estar com os outros e consigo mesmo, o sentimento de importância e o sentimento de liberdade. Liberdade também é um conceito complexo, mas podemos dizer que quem se sente impedido de ser e agir da maneira em que se sente confortável, quem é proibido de se mover, de tomar decisões, quem não pode escolher, não possui liberdade. Vivendo em sociedade, até mesmo a liberdade sofre com as limitações da cultura, da ética, dos valores que essa sociedade cultiva.

Quais são os valores de nossa sociedade hoje em dia? Especificamente, a sociedade brasileira?

Basta ligar o rádio, a televisão ou a internet para sermos bombardeados por letras de sertanejo universitário que dizem coisas como:

Vou beber, beber até cair;
Ela foi ao banheiro pra ficar comigo;
Não quero compromisso, só quero encher a cara;
Ela é safadinha, fica muito doida na balada, e por aí vai longe.

Mudando para as letras do funk, que já tiveram um sentido social no passado, encontramos coisas do tipo:

Senta na pica;
Bate com a bunda no saco;
As novinhas gostosinhas vão descendo até o chão;
Ah eu vou gozar, vem que eu vou te tacar o peru, etc, etc, etc.

 Quando abrimos os sites de noticia, encontramos manchetes como:

Fulana se descuidou e deixou aparecer a celulite;
Apresentadora do Globo Esporte mostra que está fora de forma;
Beltrana mostra corpão na praia,
Catrina retirou os seios e faz foto sensual.

Quando lemos algumas notícias, sempre tendenciosas, ou até mesmo as notícias sobre cachorrinhos resgatados e catástrofes naturais, observamos nos comentários uma enxurrada de agressividade, preconceito, falta de informação, fechando com um "a culpa é da Dilma".

Vemos passeatas de pessoas da classe mais favorecida, todos com a sua camisa da seleção brasileira, carregando suas latinhas de cerveja, mulheres bem maquiadas para aparecer bem na fita, cabelos platinados, unhas bem feitas, homens com seus bermudões e tenis caros carregando cartazes feitos na gráfica e com dizeres também em inglês (pois afinal, o mundo tem que saber que os brasileiros também falam inglês e que estão revoltados); alguns levando suas babás devidamente uniformizadas para registrarem o momento, coisa mais linda! O mais lindo é ver mulheres com corpos esculpidos em frente as câmeras, algumas nuas, reivindicando algo de importância fundamental para a nossa nação, como aulas de Moral e Cívica. Só não é mais lindo que ver pessoas fantasiadas de militares e pedindo a intervenção militar, implorando para que o Brasil tenha um poder, único, totalitário, que pode legislar e executar sumariamente. Essas pessoas, neste momento, se intitulam "povo brasileiro", indignados com a corrupção do país, contra a distribuição de renda, contra o socialismo, contra o bolsa-esmola, vai pra Cuba todo o mundo.

Os valores desses manifestante, assim como os do Mc Gui, Mc Belinho e muitos outros, é o de possuir o poder de compra, o poder de mando, ou seja, o dinheiro. No vídeo em que esse tal de Mc Belinho gravou para defender a suposta carreira de sua filha de sete anos, que canta funk com letras sensuais, se vestindo como uma mulher, usando até mesmo enchimento no peito e dançando até o chão simulando ato sexual, mostra claramente os seus valores, e os valores que a nossa sociedade está cultivando; no video ele diz que o funk está tirando muita gente das ruas e dando a oportunidade de comprar uma corrente de ouro como a que estava mostrando, no valor de R$ 25000, e que tudo isso era recalque do povo, palavra muito utilizada pelos funkeiros.


Os valores de nossa sociedade são os ditados pelo capitalismo selvagem, pelo egoísmo crescente, pela futilidade de nossas relações atuais e pela necessidade de sermos admirados num mundo onde tudo é efêmero; esses valores são fortalecidos pela imbecilidade de seres que não estão mais aptos para a reflexão. A rapidez do mundo, das informações, das relações, faz com que a reflexão seja cansativa e rasa, não temos tempo para isso. É muito melhor e mais fácil nos trancarmos em nosso mundo e preenchermos nosso vazio com objetos, status, sexo e admiração momentânea. Esses são os nossos valores, os do individualismo, é a era do "egocentrismo desesperado".

De acordo com tudo e todos, estou sendo retrógrada, obsoleta, comunista e desvairada, mas não creio que o mundo esteja menos desvairado que eu. Enquanto o sentido da existência estiver focado em coisas que estão aquém e além de nós mesmos, sem os quais podemos existir com saúde e bem estar, enquanto as pessoas estiverem buscando se afirmar através de objetos e, ou, do próprio corpo, enquanto as pessoas não enxergarem que se todos estiverem no mesmo nível, há maior bem estar, paz e felicidade, enquanto as pessoas não conseguirem amar ao próximo, não no sentido melodramático e religioso, ou talvez seja religioso sim, no sentido de se enxergar no outro, de se igualar e perceber que todos somos iguais e temos os mesmos direitos,  enquanto não percebermos isso tudo, viveremos numa busca incessante e infinita pela felicidade que nunca encontraremos, por que há coisas infinitas no mundo para se comprar, mas a paz que os valores voltados para a humanidade nos trazem, não tem preço.



domingo, 12 de abril de 2015

Tempos


Há dias em que as certezas se vão
E semeiam nuvens pálidas que esmagam,
Escurecem, atordoam...

Há tempos em que tudo se vai,
Tudo vem,
E tudo fica em movimento.

Há  noites insones
E dias entorpecidos
Em que o mundo não existe.

Há dias que são noites,
Noites que não passam
E tempo indefinido.

Há tempos que não passam,
Há tempos que não chegam,
Há tempos que não existem.


Há tempos...

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