sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Inclusão digital, racismo e impunidade na internet

Inclusão digital significa que todos devem ter acesso à internet, o que é uma forma justa de promover a igualdade; mas o que acontece quando pessoas despreparadas, racistas, criminosas adquirem o direito de acessar a internet e publicar o que bem entenderem, sem que haja uma norma ou punição? Basta acessar qualquer link de notícias, desde os assuntos mais simples aos mais mais polêmicos, para se deparar com uma enxurrada de insultos, palavrões, xingamentos, demonstrações de racismo e total desrespeito, sejam direcionados a quem postou, a quem comentou ou ao que se relaciona a postagem. 

De acordo com o marco civil da internet sancionado pela nossa presidente Dilma Roussef: 

O Marco Civil estabelece como regra que um conteúdo só pode ser retirado do ar após uma ordem judicial, e que o provedor não pode ser responsabilizado por conteúdo ofensivo postado em seu serviço pelos usuários. Com isso, o projeto pretende evitar a censura na internet: para se provar que um conteúdo é ofensivo, o responsável deve ter o direito ao contraditório na Justiça.
O texto, porém, prevê exceções. Um conteúdo pode ser retirado do ar sem ordem judicial desde que infrinja alguma matéria penal (como pedofilia, racismo ou violência, por exemplo). Isso evita que um material que possa causar riscos a algum usuário fique no ar enquanto aguarda decisão da Justiça. O que se pretende com isso, segundo Varella, é que a internet ganhe mais segurança jurídica na retirada de conteúdo. A regra é que os conteúdos têm que continuar funcionando, a não ser que firam a lei.

Isso significa que não os provedores, mas os usuários serão responsáveis por suas postagens; porém, e apesar disso, as pessoas continuam a publicar suas asneiras sem fim, humilhando, agredindo e agindo criminalmente, sem que alguma coisa aconteça quanto a isso. Muitas vidas já foram destruídas por estes meios, são pessoas que tiveram sua intimidade exposta indiscriminadamente ou sofreram bullying de algum tipo, pessoas que foram até mesmo linchadas por causa de publicações duvidosas, são tantos os casos que acontecem todos os dias, mas nada muda no ambiente virtual. Parece que todos querem sempre se destacar dizendo alguma coisa, querem mostrar seu poder e superioridade destruindo alguém que nem se sabe onde está.
 
Nesta semana foi destaque uma demonstração de racismo em uma foto de um casal, um rapaz branco e uma moça negra:


Segundo informações, haverá investigação neste caso, mas e quanto a tantos outros casos que não repercutem na mídia, mas destroem vidas?

Outro assunto que está circulando pela mídia é o de uma torcedora flagrada chamando o goleiro Aranha de macaco, o que se tornou algo comum em campos de futebol. Depois da repercussão na internet, a moça foi afastada do emprego e ficou estigmatizada. Obviamente é inaceitável tal demonstração de racismo e difícil aceitar que o Brasil ainda esteja neste estágio, porém, apenas uma pessoa que teve a infelicidade de ser mostrada na mídia irá pagar por todos os outros. Não sei até que ponto isso é justo ou não, talvez contribua para que as pessoas tenham medo de ofender e serem fotografadas ou filmadas, mas não resolve o problema do racismo e da destruição causada pela exposição nas redes sociais. 

Porém, o problema está aí e faz parte de nossa geração. Uma vez que o estrago seja feito na vida das pessoas, é difícil de se desfazer o mal, principalmente por que é quase impossível apagar definitivamente algo publicado na internet. Vivemos na época da impunidade e da crueldade gratuita, onde qualquer um que tenha um teclado e esteja conectado pode atirar para matar e desligar a rede, como se nada tivesse acontecido.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Historinhas do baú - timidez na escola

Meu irmão e eu

1 - Quando eu tinha oito ou nove anos, estudava em uma escola pública em Ipatinga. Sempre fui tímida, nunca falava durante as aulas e era mais tímida ainda  dependendo da hierarquia. Até o quinto ano eu não tive amigos na escola, sempre fui péssima em me socializar. Lembro-me que a aula havia acabado mais cedo e estávamos eu e mais alguns alunos, aguardando nossos pais do lado de fora da escola. Uma menina espevitada começou a brincar de levantar as saias das meninas, inclusive a minha. Naquela época, todas as escolas tinham o mesmo uniforme, camisa branda e saias azuis marinho. Eu não sei por que diabos as crianças gostam de brincadeiras tão idiotas, mas já que ela estava levantando a saia de todo mundo, eu resolvi levantar a dela também. Neste dia eu percebi como as pessoas gostam de vitimar, mas não toleram ser vitimas de brincadeiras de mal gosto. Quando levantei a saia da menina, ela me fulminou com os olhos, parecia que eu tinha cometido um crime. De repente, ela pegou quinhentas pedras começou a atirá-las em mim como louca. Eu parecia o Neil do Matrix, desviando de todas, foi um milagre nenhuma delas ter me atingido! Depois disso, eu fiquei chorando e esperando que minha mãe chegasse, mas ela demorou um bocado! Tive que me esforçar com as minhas lágrimas sem vontade pra que ela ainda me encontrasse chorando e tomasse alguma providencia.

2 - Eu era tão tímida que podia estar morrendo na escola que nunca falaria nada. No primeiro ano, estava copiando a lição, quando comecei a sentir dificuldade para enxergar o quadro, me sentindo mal e enjoada. Mesmo assim, quase desmaiando, esforçava-me para copiar e não dizer nada a ninguém. De repente vomitei na sala de aula e não me lembro de mais nada, acho que desmaiei e fui levada para a diretoria, só me lembro de minha mãe indo me buscar.

3 - No primeiro não havia um menino deficiente, ou portador de necessidades especiais, ou seja lá como chamam hoje em dia. Ele tinha só a metade dos braços, três dedos em uma mão e dois na outra. Apesar dessa característica ele era muito levado, um capetinha, como diziam, ô menino! Quando aconteceu uma festa junina na escola, a professora começou a escolher os pares, mas a escolha dela era perguntar pra cada menina se queria dançar com tal menino, algo bastante desagradável. A professora perguntou a todas as meninas se elas gostariam de dançar com o tal capetinha, nenhuma quis, eu fui a ultima, aceitei, não parecia ter outra escolha naquele momento. O menino não parava, não ensaiava, no dia da festa junina sumiu por aí, nossa! Mas tudo bem, são coisas da vida.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Amor não é para os fracos

O amor pode nascer em terras distantes,
Ou ao lado do seu quintal,
Trazer prazeres abundantes,
Ou fazer-lhe muito mal.

O amor é feito por dois,
Se apenas um quer, não vive amor.
Se um lado é agora e o outro, depois
Não há nada além de dor.

Amar não para fracos
Fracos não podem amar,
Pois aceitam apenas cacos
E jogam o ouro ao mar.

Amor verdadeiro não espera
Nem duvida de seu dever.
Quem ama mesmo, se esmera,
Quem ama, paga pra ver.

Se alguém o ama e nada faz
Se não corre  e não luta,
Esse amor não é capaz
De se transformar em fruta.

Amor verdadeiro não é fraco,
Não espera, não se resigna.
Amor  não vem em nacos,
É tudo ou vai para a faxina.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Um dia de fúria de uma mulher




Não era um dia especial, era apenas uma terça-feira como outra qualquer e ela tinha que acordar às 5:30 para chegar até a faculdade, mas antes de chegar até a faculdade, era preciso ainda acordar as crianças, fazer o café, arrumar o quarto e o material do qual precisaria. O celular despertou pela terceira vez, mas os seus olhos eram insistentes e queriam permanecer fechados, o seu corpo não a obedecia, ela queria apenas dormir, dormir para sempre. Mas precisava se levantar. Procurou a roupa menos amassada, esquentou o leite, por que seria mais rápido, gritou com as crianças algumas vezes, não comeu e saiu correndo para pegar o ônibus. Estava atrasada. Olhou para o celular enquanto andava apressadamente, quando levantou os olhos, o ônibus estava quase chegando ao ponto, e ela ainda estava distante. Correu como uma doida desvairada, toda desengonçada, e percebeu que as pessoas a olhavam, por que não iam todos pro inferno, pensou. Correu tanto que conseguiu chegar ate o ponto, o ônibus ainda estava parado; bateu na porta, que já estava fechada, mas o ônibus saiu em disparada, deixando-a com cara de pamonha azeda no meio da rua. Que ódio! Pensou e resmungou. Percebeu que a sua roupa estava estranha, olhou para baixo e viu que a sua blusa estava desabotoada, entendeu por que as pessoas a olhavam enquanto corria. Precisou esperar mais meia hora, a essa altura pensava se valeria a pena chegar tão atrasada na aula, ainda mais que a sua vontade de assistir ao professor falando era inexistente. Mesmo assim, decidiu ir, melhor ganhar uma falta que duas.

Foi a ultima a chegar na sala de aula, entrou esbaforida e, para ser mais discreta ainda, chutou a lixeira que escorava a porta, fazendo-a parar quase aos pés do professor. Hoje eu me mato, pensou com os seus botões. Sorriu amareladamente e tentou se sentar fazendo o mínimo de barulho possível, o que já não importava mais depois do espetáculo inicial. O professor resolveu contar as faltas dos alunos, e ela não poderia faltar nem mais um dia, ou perderia o ano. Nem ela mesma se lembrava que tinha faltado tanto, mas estava escrito. Para piorar, ela teria que fazer um trabalho sobre um texto que ela nem sabia que existia, por que havia faltado à ultima aula, era para o dia seguinte. Tentou se segurar e não pensar no problema até que fosse a hora certa.

A aula acabou e mais uma vez ela teria que voar, se quisesse almoçar antes de chegar até o trabalho, 5 minutos fariam a diferença entre almoço ou pão de queijo. Quando ela ia saindo da sala, uma amiga veio ao seu encontro, motivo para revirar os olhos. Essa amiga também estava passando por um momento depressivo e sempre a procurava para se desabafar, só que não era um bom momento, não mesmo. Ela a acompanhou, falando sobre filosofia, sobre religião, tudo junto e misturado, falando de sua solidão e de sua tristeza. Nada era mais incomodo do que aquele tipo de assunto naquela hora, ela já tinha a sua própria solidão e depressão das quais mal conseguia tomar conta, sem falar que ficaria com o pão de queijo o dia todo, essa era a vida.



Quando conseguiu se desvencilhar da amiga, depois lhe de lhe oferecer algumas palavras de conforto, correu para pegar o ônibus que estava lotado. Mais uma viagem de 40 minutos em pé, num calor infernal. Durante o trajeto pensava sobre a vida e sobre tudo o que estava passando e que passara até ali, percebera que tudo era uma grande besteira, a rotina, os estudos, o trabalho, nada fazia sentido. Ela era uma vaca servindo aos outros, engordando com o capim e dormindo, quando conseguia. Não sentia prazer em nada, pensava que gastar noites em bares e boates era um desperdício de vida, não tinha paciência para conversa filosófica de bêbados, muito menos para suportar cantadas baratas de adolescentes ou barbados descarados. As pessoas são inúteis, pensou, eu sou inútil. Tudo é inútil.

 seu pensamento foi interrompido pelo ponto de descida, caminhou em direção à lanchonete e pegou o seu pão de queijo, que foi comendo pelo caminho. Que vida medíocre, foi ruminando com o pão de queijo. No caminho observava os adolescentes energéticos, pulando, gritando estridentemente, como se o mundo fosse maravilhoso. Via também pessoas simples e convictas de suas obrigações, até mesmo satisfeitas com elas, mesmo que fossem apenas limpar o chão. Idiotas, pensou.

Entrou no local de trabalho, e viu aquelas mesmas caras falsas e irônicas, sorrindo e cochichando. Sentiam-se pessoas reais, não de realidade, mas de realeza, apenas por terem cargozinhos provisórios dentro da empresa. Malditos! Pensou. Sentou-se em sua cadeira, onde redigia e corrigia textos o dia todo. 8 horas sentada, com pequenos intervalos evitados, já que se socializar com cobras não era a sua preferência. Abriu seus textos, seus e-mails, suas redes sociais, ficou rolando as paginas, uma, outra, e outra. Tentava se concentrar no trabalho, mas a sensação de inutilidade a invadia, não via o porquê de nada do que fazia, se sentia cada vez mais sufocada dentro daquela sala, sentada, imóvel, onde mexia apenas os olhos e as mãos. Foi subindo um calor pelo seu corpo, uma energia acumulada, uma raiva inexplicável, sentia vontade de quebrar tudo o que estava a sua volta, começando por aquele mouse dos infernos. Começou a pensar em sua rotina, em sua solidão, em sua vida de gado, não viu sentido para estar ali ou em qualquer outro lugar. Enquanto pensava, ouviu a voz do seu chefe se aproximando, e não existia voz mais irritante para ela do que a voz de seu chefe, uma voz rouca, aguda, sempre em alto volume, e sempre puxando o saco de algum superior. Vontade de enviar um murro na cara desse retardado, pensou.

Aquela voz não parava de falar e ela não parava de pensar em todos os que passaram em sua vida, todos as desrespeitaram de todas as formas possíveis. Nada que ela fizesse faria com que os outros a vissem como ela realmente era e lhe atribuíssem o justo valor, mas ela estava ali, sentada, cumprindo com o seu papel, como uma galinha botando os ovos para depois ser degolada e comida por aqueles que a alimentaram. Ela era uma galinha. De repente ela sentiu ódio, ódio por tudo e por todos, aqueles imbecis sem sentido, aquelas ovelhas, aqueles lobos. Se ela tivesse uma arma, atiraria em todos, um por um, até apagar os sorrisos falsos de suas faces. Sentiu o rosto em chamas, e sua inércia naquela cadeira deslocou a sua energia para os seus punhos que se cerravam cada vez mais forte. enquanto estava ali, a ponto de explodir, seu chefe se aproximou e perguntou com um sorriso irônico se ela já havia terminado a tarefa, por que estavam com pressa e alguns acordos dependiam daquele texto. Aquela voz estridente e aqueles olhos azuis sonsos eram a coisa mais irritante do universo. Por que ele tinha que ir falar com ela agora?  Ele a olhava fixamente, empinando a barriga em sua direção, ela o olhava como se estivesse olhando para uma parede branca. Impaciente, ele disse: _Então, minha filha, nós não temos o dia todo, não! Acorda!

Essa frase parece que ligou algum botão em sua cabeça. Os seus olhos se arregalaram, ela se levantou lentamente e disse, com voz calma:

_Você quer o contrato? Quer? 

Ele a olhou, talvez com um certo receio de responder, e balançou a cabeça, sinalizando que sim. Ela pegou a pilha de papeis que estava em sua mesa e os atirou todos na cara do chefe:

_Toma essas porcarias desses contratos! Engula esses contratos, enfie esses contratos no olho do seu cu, seu filho de uma égua!

O chefe ficou parado, sem saber como reagir, as pessoas do escritório se levantaram e ficaram olhando embasbacadas. A mulher tinha ficado maluca, era o que todos estavam pensando. Mas ela não se sentia maluca, se sentia estranhamente livre, sentia paz. Sempre teve a vontade de fazer isso, pela primeira vez estava concretizando um sonho:

_O que vocês estão olhando, bando de mal amados? Ficam aí, o dia todo, falando mal dos outros, fingindo que tem vidas maravilhosas, mas cada um é mais infeliz que o outro. Vão cuidar de suas vidas, seus frouxos, cambada de capachos! Vão todos à merda! Eu me demito, aleluia, nunca mais verei essas caras de otários!

Saiu pela porta enquanto todos a observavam calados. Que liberdade! Sorria pra si mesma, sensação maravilhosa. saiu pela rua assim, feliz, quando um rapaz a mediu de cima embaixo e disse:

_Nossa, que princesa, hein! Gostosa demais!

De novo algo se acendeu dentro dela. Ela voltou para o rapaz, que não esperava que ela assim fizesse, ficando sem reação:

_ Sou gostosa é? Você acha que sou gostosa? Então olha direitinho pra ver se eu sou gostosa!

Dizendo isso, foi desabotoando a blusa insanamente, jogando a peça sobre o rapaz, que ficou envergonhado, no meio da rua movimentada. 

_Olha direitinho, não é só isso que interessa pra vocês homens, seus ordinários, cambada de vagabundos! Olha bem pra mim, é isso que você quer!

Falando isso foi tirando todas as peças de roupa, as calças, a calcinha, tudo, ficando completamente nua no meio da rua. Todos pararam para entender o que estava acontecendo, para observar a louca no meio da rua. Ela gritava nua, pega aqui, não é isso que você quer? Mas o rapaz foi embora, envergonhado. Ela estava livre, livre de todas as amarras, de todas as convenções. Ela não queria mais nada, não desejava nada. Ela queria apenas se livrar de todo o ranço que a humanidade havia lhe deixado, impregnando o seu coração e a sua alma de amargura e tristeza.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Qual o sentido da vida?


De acordo com o que nos ensinam, os animais na face da terra parecem simplesmente viver, sem expectativas, sem desejos, sem planos, apenas buscando suprir as necessidades de seus corpos; eles não devem se perguntar sobre o motivo de sua existência, por que, segundo filósofos, eles nem sabem que existem, não têm a consciência de que estão vivos ou mortos. Porém, o que percebemos é que nada é tão claro e definido, não sabemos como realmente os outros seres percebem o universo e qual a relação deles com o todo que existe. O que sabemos é que cães sofrem por saudades de seus donos, sabemos que macacos apresentam comportamento parecido com o dos humanos, e sabemos que muitos animais realizam tarefas tão complexas que só conseguimos explica-las dando-lhes a justificativa de terem sido conduzidas pelos instintos, coisas que nem sabemos definir satisfatoriamente. As abelhas constroem colmeias incríveis, possuem uma comunidade organizadíssima e produzem mel, tudo creditado ao instinto animal. E nós, seres humanos, não temos mais nada de instintivo a não ser o amor materno e o desejo sexual? Será que somos os únicos que nos  perguntamos sobre o motivo de nossa existência?

Essa pergunta, como a maioria delas, ainda não encontrou nenhuma resposta satisfatória. Nenhuma das centenas de religiões existentes, nenhuma teoria científica, conseguiu explicar o sentido da vida. Na verdade, a maior parte dos pensamentos científicos dizem que a vida não tem sentido e nós apenas existimos, isso quando não levantam a duvida sobre o que é existir de fato. Cada religião traz a sua explicação e a sua orientação para vivermos bem na terra e em outro plano, depois que morrermos; algumas dizem que devemos ser bondosos e obedecer a regras rígidas para merecermos o paraíso, outras dizem que devemos evoluir para nos tornarmos seres superiores e acabarmos com o sofrimento, e por aí vai. O que nenhuma explica é a razão pela qual a humanidade não melhora, não evolui e vive em constante ciclos de autodestruição, nenhuma explica por que crianças e mulheres continuam sendo massacradas e sofrendo horrores, nada explica por que o homem não é capaz de evoluir.

Creio que todo  ser humano já se perguntou sobre o sentido da vida, sobre o porquê de estarmos aqui, já que tudo o que fazemos, um dia, não significará nada, pois não temos certezas sobre o pós-morte, sendo que tudo perece e acaba. Por que deveríamos nos esforçar para conseguir bens, para adquirir conhecimento, se tudo teria um fim?  É por isso que inventaram as religiões, para nos acalmar na hora em que nos questionarmos sobre a relevância de tudo o que fazemos.



Para os que encontraram as suas certezas, a vida pode vir a ser menos amarga e a existência adquirir sentido, mas para os que não tem certezas, é preciso criar o sentido para a vida, sob pena de poder cair em depressão profunda e não ser capaz de  se deliciar com todos os segundos nos quais temos a certeza de estarmos vivos, pois estes segundos significam que há possibilidades infinitas. Quando os olhos se fecharem, não poderemos afirmar que teremos alguma oportunidade de realizarmos mais alguma coisa. Nós não sabemos se recomeçaremos algum ciclo ou se iniciaremos uma jornada, não sabemos se seremos premiados ou se apenas continuaremos a caminhada, não sabemos se a nossa consciência continuará existindo ou se o fim é realmente o fim de nós como uma consciencia única no universo. Sabemos que estamos aqui, agora, mesmo que não tenhamos  certeza de que o que vemos e sentimos é realmente como vemos e sentimos, mas isso é assunto para a neurociência.  Apenas temos a sensação de que há um tempo e de que agimos neste tempo utilizando nossos corpos, o que nos traz prazeres e dores, assim como sabemos que nos relacionamos com outros seres, o que também nos traz prazeres e dores.  Sendo assim, cada um possui uma fonte diferente de prazeres e dores, moldada pela cultura e por questões ainda não totalmente claras, que são inerentes a cada individuo, tornando-o semelhante ao todo, mas genuinamente único. Cada um de nós tem o dever de identificar as fontes de prazeres e de dores, e escolher de onde quer beber. 


Se do que temos certeza é apenas de nossa curta existência, enquanto ainda existimos, seria imensa insanidade desperdiçar cada segundo de vida em atividades que não fossem prazerosas ou nos causasse mal estar e infelicidade. Embora algumas religiões pregam que devemos abraçar a pobreza, que devemos obedecer, ser humildes e não ter vontades, cada um deve decidir se essa maneira de viver pregada por algumas culturas lhe trará uma existência plena e satisfatória. Para cada ser, o prazer e a dor podem vir de fontes totalmente opostas, cada um precisa identificá-las e escolhê-las. Essa escolha de sentido para vida é totalmente pessoal e não pode sofrer influencias externas, por que a existência de um ser, embora possa influenciar na vida de muitos, é apenas de responsabilidade dele próprio. Os que se deixarem dominar e se guiar por qualquer fator externo a si mesmo estará fadado a uma vida medíocre, a uma prisão sufocante, estará destinado a uma existência plana e sem conquistas verdadeiras. Não há outro sentido para a existência que não venha de si próprio, este é o seu sentido, a sua razão para viver. Aquele que não é capaz de suportar a claridade que se irradia de seu próprio ser, o seu ser verdadeiro, a luz que vem de suas vontades e de seus desejos mais íntimos, aquele que fecha os olhos para si mesmo e corre para dentro da caverna segura, escura e fria, jamais encontrará o sentido de sua existência e dará a ela o sentido moldado por outros. 


Se um ser não tem a capacidade de fazer suas próprias escolhas e é obrigado a agir de forma imposta por razões externas a ele, este ser não construirá nada, não "evoluirá" a sua essência, não se conhecerá, não viverá verdadeiramente como a sua "alma" tem necessidade. Levar uma vida como essa seria o mesmo que não existir, seria o mesmo que se transformar em um animal que apenas satisfaz seus instintos básico, mas vive preso a uma coleira.  Aquele que não tem a capacidade de conhecer a si mesmo e de escolher as fontes de dores e prazeres para si mesmo, simplesmente, não existe.

O sentido da vida depende de cada um. Cada ser constrói o seu sentido, o seu objetivo, o motivo pelo qual deveria continuar vivo. O ser que não é capaz de se conhecer e de fazer escolhas, certamente, não encontrará sentido para a vida, e estará jogando fora a preciosidade das possibilidades infinitas disponibilizadas por cada segundo de sua existência.


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