segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Conto V - Doce ilusão

Este conto foi um pedido de minha amiga Andréia, ela gostaria de ler uma história sobre uma jovem sonhadora e um amor improvável vivido pela Internet.

Era tão menina quando se casou, com a sua barriguinha guardando um anjinho  e um sorriso doce nos lábios, imaginando viver um grande amor... Aos 15 anos, Márcia acreditava em contos de fadas e príncipes encantados, e em Marcelo encontrou a imagem do cavaleiro destemido, pronto para salvá-las do dragão da solidão. Os anos correram depressa e a verdade insistiu em ir destruindo lentamente todos aqueles ideais,seu príncipe se mostrou como sempre fora: um homem comum e medíocre. Marcelo não tinha nada de especial, não era engraçado, não gostava de conversar, suas distrações se resumiam em futebol, TV e cerveja com os amigos, mas para Márcia isso era tão pequeno, tão pouco, tão desprovido de  dignidade, que ela foi perdendo totalmente o interesse em viver ao lado daquela pasmaceira. 

A filha foi crescendo e a vida não encontrou muitas variações, apenas trabalho e melancolia, nenhuma emoção, nenhum romance. A Internet era o lugar onde ela podia se libertar, encontrar pessoas de mundos diferentes, saber de coisas que nunca imaginara, ver, viver. Foi lá que, numa noite de futebol, encontrou uma pessoa que mudaria o seu modo de sonhar, um egípcio lindo, jovem, com deliciosos olhos adornados por grossas sobrancelhas. Com poucas conversas ele já exigia dela atenção e carinho especiais, estava sempre a espera dela, sempre tinha lindas palavras para consolar-lhe na noite solitária, sempre tinha prazer em ouví-la. Ele a fazia sentir especial e fazia com que ela vislumbrasse outras vidas, outros lugares. Não demorou muito para que os dois se declarassem e jurassem amor eterno, mas se a vida fosse tão fácil, não seria tão emocionante! Ela era casada e ele era muçulmano.

O tempo foi passando e o casamento, as mentiras, se tornaram insuportáveis. Márcia chamou o marido para conversarem e disse que precisava de um tempo, afinal, havia se casado muito nova e não estava certa de que era mesmo aquilo o que queria. O marido sofreu, pediu, mas no final entendeu o lado da esposa, ou fez que entendeu. talvez também quisesse provar algo para si mesmo, ou experimentar um pouco do que que a esposa sugerira. O fato é que ele saiu de casa e deixou a mulher e sua filha de 5 anos.

Márcia estava totalmente apaixonada por Hytham, era o amor que tanto esperava, que tanto sonhara! Ele era totalmente romântico, atencioso, engraçado, lhe dava atenção e a fazia sentir especial, única. Ela era chamada de "minha vida" e sabia que aquele amor seria eterno.

No mês do dia dos namorados, Márcia quis fazer uma surpresa para Hytham, comprou uma aliança com o nome dela gravado, uma cueca vermelha para representar o amor dos dois e mandou para o endereço que ele havia lhe dado. O presente havia lhe custado os olhos da cara, mas o que era a visão comparada a um grande amor? 

Márcia sabia que ele era muçulmano e que seria muito difícil que a família dele a aceitassem, mas ele lhe dava tanta segurança que ela não duvidou por nenhum segundo de que tudo acabaria bem. Na noite em que enviou os presentes, não conseguiu se segurar e contou sobre a surpresa que havia enviado para a casa dele; ela falou pela tela do computador:

_Hytham, meu amor, no dia dos namorados você vai receber uma surpresa em sua casa.

O egipicio não soube disfarçar a sua expressão de susto, pavor, ou seja lá que diacho era aquela expressão escabrosa, mas Márcia logo notou que o que fizera não tinha sido recebido de bom grado. O rosto dele fez com que milhões de sinos tocassem em sua cabeça e, de repente, ela conseguiu ver algo que não havia conseguido ver em 8 meses de convivência. Ele, finalmente disse:

_Você está louca? Como eu vou explicar isso pra minha família? Você sabe que eles não sabem de você, e se eles souberem da sua situação....

Márcia ficou sem mundo, ficou sem vida, sem futuro, perdeu tudo em um instante. Percebeu que tudo o que vivera até ali tinha sido construído em areia na beira do mar; seu castelo tombara e ela não tinha mais material para reconstruir. Ela queria morrer. Aquele homem nunca pensou nela dentro da vida real dele, nunca a escolheria para esposa, nunca a levaria para a sua família; para ele, Márcia não passava de um passa-tempo muito divertido, uma estrangeira com quem teria grandes historias para contar, ou para esconder.

A menina ficou deprimida por um mês, não saiu de casa, não trabalhou, definhou e quase morreu de verdade. O marido não sabia o que estava acontecendo com a esposa, pensou que tinha alguma doença desconhecida, algum mal, mas ficou ao seu lado até que ela voltasse a olhar para alguma direção que não para o além. Um dia ela saiu da letargia e decidiu que ia viver no mundo real e que a felicidade não é fantástica, que pode ser conseguida na simplicidade do dia-dia, com alguém que gosta de futebol e de cerveja. Ao menos tentou sentir tudo isso e aceitou que seu marido voltasse.

A vida estava caminhando e Márcia estava realmente se esforçando em fazer com que o seu casamento fosse tolerável, apesar da dificuldade que um sonhador encontra em viver na mediocridade. Um dia, a sogra foi até a sua casa para aconselhar-lhe e ver como andavam as coisas naquele casório. Márcia a recebeu muito bem,e as duas foram tomar café na varanda quando um carteiro chegou com um embrulho chamando por Márcia. Quando Márcia olhou aquele pacote nas mãos daquele  inoportuno trabalhador, sentiu as faces como em pimenta e sua mente mergulhou em viscosa confusão. Ela respondeu rapidamente:


_Sou eu, sou eu!

Assinou os papéis e saiu correndo com o pacote  para dentro de casa. A sogra tinha visto que era um pacote com dizeres estranhos e perguntou, mas Márcia despistou:

_Não, Dona Filipina, isso aqui é de uma amiga minha lá do Egito que pediu pra  entregar pro namorado dela, espera aí que vou guardar!

Márcia abriu o pacote dentro de casa, pegou aquela cueca vermelha e enfiou na lixeira da vizinha pela janela da cozinha. O anel, teve que jogar na privada e dar descarga, com muito pesar pelo dinheiro gasto. Aquela cueca tão linda, na lixeira da vizinha! Tomara que o marido dela não veja aquilo... E o anel, com o meu nome escrito, como fui ridícula e idiota! Márcia pensava tudo isso enquanto a água levava embora a prova de sua burrice e ingenuidade.

Se a sogra desconfiou, ela não sabia. O olhar daquela mulher era indecifrável, como o da Esfinge! O fato é que tudo o que ela havia mandado voltara. Ela não sabia se ele devolvera, se se mudara, se o endereço informado nunca existira, mas o vazio dentro de seu coração  se tornou maior. Como uma pessoa pode se enganar tanto? 

Hytham foi o seu príncipe, mas Marcelo era o seu marido. Dormia com Marcelo, mas sonhava com o seu príncipe. Dormia com seu príncipe e acordava com Marcelo. E assim suportou a mediocridade de sua vida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Protestinho

Eu fui na "onda" do Google Adsense e me inscrevi nessa tal monetização do blog e eis que todas as figuras que haviam, inclusive as minhas, foram transformadas em figuras pretas com um ponto de exclamação, até mesmo as minhas originais. Entendo que não posso monetizar com propriedade alheia, mas agora tenho que ficar editando as postagens antigas e retirando todas as figuras, resultado: O meu blog ficou pelado e seco.  Sem falar na dificuldade de editar um por um, por causa disto, os eventuais leitores não estranhem quando se depararem com este ponto de exclamação. Nem sei se quero monetizar com esse blog, e acho que quem cai aqui de para-quedas também não está a fim de clicar nestes anúncios, e o objetivo deste blog nada é além de ser um local de desague para o meu cérebro e coração. Falei.

Conto I_ As janelas do destino


É com muito prazer que venho dizer o meu primeiro conto da série "Um conto por meio conto"! Este foi a pedido de Cláudia Faria e a sua temática é sobre algo que vem acontecendo muito , aliás, sempre aconteceu desde que existe gente neste planeta, mas penso que vem sendo mais constante com o advento da internet:

"amor distante, mesmo perto, ao menos da alma; conflito amoroso, proibida e preconceituosa historia de amor "

Ele nunca imaginou que aquela noite inicialmente entediante, poderia mudar a sua vida... Muitas páginas foram visitadas na internet, sites de relacionamentos foram exaustivamente pesquisados  embora sempre que abertos mostrassem as mesmíssimas atualizações dos não diferentes amigos. Um anúncio lhe chamou a atenção e ele resolveu entrar em um novo site de bate-papo, tentar preencher o vazio que lhe destroçava o peito e a noite de sono.

Depois de tres conversas mais entediantes que a noite, resolveu que aquela seria a ultima tentativa e que depois daquela iria, finalmente para o seu leito. O apelido lhe chamou a atenção: "Feia mas doce". O papo começou como todos os outros: "Oi", "de onde tecla", "O que desejas", mas logo ele notou que havia algo de diferente na feia, ela realmente era doce. O papo foi tão divertido e agradável, girou em torno de comida, historias de tempos de escolas até filosofia sobre a existência; o dia já começava a dar os seus primeiros sinais, mas eles não queriam se deixar, não queriam dizer "adeus", não queriam se perder... A surpresa maior foi descobrir que eram da mesma cidade, então Adalberto pediu logo o e-mail e o telefone, para que nunca mais se perdessem...


Os dia foram se passando e a cada conversa os dois percebiam que havia algo a mais naquela relação, um entendimento, um sintonia, um prazer inquestionável. Ele poderiam passar horas conversando sem que se dessem conta de que a noite se fora e sem que houvesse algum minuto de tédio; as despedidas eram intermináveis. 


Cristine se sentia livre com Adalberto e ele podia ser ele mesmo, sem máscaras, ou quase. Apesar de toda aquela sintonia havia no ar um sentimento estranho, como quando sabemos que algo está debaixo do tapete, mas não queremos levantá-lo pra olhar; poderia ser poeira, mas poderia ser algum animal peçonhento, e as vezes é melhor fingir e sonhar que nada está lá para não levarmos uma picada conscientemente. Esse sentimento estava presente no ar, mas nenhum dos dois sabia ou queria saber, queriam apenas fingir que aquele era o mundo real, o único mundo.


Era amor! Amor de idéias, de almas, de ideais, não de corpos, ainda. E amor não vem mais de ideais que de realidade? Não sei. Mas os dois sabiam que se amavam e precisavam dizer o que lhes sufocavam, antes que a dor os consumissem.


Em uma noite fria e chuvosa os corações estavam agitados e as frases pontuadas por insistentes e longas reticencias. Sentiam que a hora era aquela e não queria adiar mais nada, assim como também temiam perder o tesouro que conquistaram naqueles meses. Cristine, finalmente, teve coragem e digitou a seguinte frase:


_Dada, eu tenho uma coisa pra te contar...


Esperou com o coração saltitante, até que embaixo da janela do conversador instantâneo  pudesse ver: Adalberto está digitando. Finalmente veio a resposta:


_  Eu também tenho....


Naquele momento os dois não sabiam se se sentiam aliviados ou enganados, os sentimentos eram confusos, mesclas de raiva, medo, ansiedade. Eles nunca suaram tão frio e o silêncio do teclado nunca parece tão longo... Adalberto disse:


_   Primeiro as damas.


Cristine pensou, Covarde! Mas não era mais hora de adiar mais nada,  de uma vez só disse:


_ Quando eu te conheci naquela sala de bate-papo eu não poderia imaginar que você seria essa pessoa tão especial que é hoje e sinto que daria a minha vida por você e que também não sei mais viver sem você... Em todos os meus sonhos nós nos encontramos, e é sempre o momento mais feliz de minha vida...Mas você precisa saber que esse sonho será muito difícil de ser realizado e não sei se você vai querer falar comigo depois de saber...Mas não posso mais esconder...Eu...Sou casada.


Silêncio devastador. Nenhuma palavra na tela. Cristine pensou que agora estava tudo acabado e que nunca mais ele teria confiança nela ou lhe daria o mesmo valor. Os seus olhos estavam embaçados de lágrimas, ela suava e não conseguia se conter na cadeira, até que finalmente ele disse:


_  Eu não posso andar.


_  O quê? como assim?


_  Eu sou deficiente físico, vivo numa cadeira de rodas e dependo de minha família...


Nunca houve tanta dor! O que pesava mais naquele momento, era difícil de se dizer. Cristine estava atordoada, não conseguia pensar, não conseguia aceitar. Parecia que tudo era uma brincadeira que ele estava inventando só para que ela se sentisse melhor, como sempre fazia, mas não era... O amor poderia suportar a tantas artimanhas? Algum dia eles estariam preparados para enfrentarem as conseqüências de um sentimento em tais circunstâncias? Cristine estaria preparada para dar a Adalberto o que ele precisava? Adalberto estaria disposto a enfrentar a familia e a sociedade? Será que o amor é mais forte que  tudo e os nossos próprios preconceitos?


Cristine disse que precisava pensar e que era para que ele pensasse também. Os dois disseram adeus, talvez pela última ou primeira vez no resto de suas vidas. Do lado de cada um, a vida real seguia.

Conto II - Ninguém perde por notar


Essa sugestão veio do meu amigo português Zé de Oliveira:


Um conto sobre alguem que tinha um potencial enorme, e que podia fazer toda a diferença
mas ninguém o levou a sério e todo o mundo perdeu com isso.

O pai estava sempre gritando com o menino, mas o tempo era curto, 12 horas no trabalho, mestrado e o escambal, como poderia sobrar tempo para ter paciência e prestar atenção ao filho? Era preciso saber mais, trabalhar mais para ter mais, para dar coisas ao filho e ensiná-lo como deveria ser um homem. Mas Julio não queria saber de gastar suas preciosas horas  em coisas tão enfadonhas como nas que o pai gastava, ele preferia inventar histórias e coisas, o que era muito mais proveitoso, divertido e dava mais sentido à uma vida pequenina.

Em uma noite igual a todas as outras, o pai chegou e em suas fuças estava escrito "Stress". Julio já estava acostumado àquelas letras e não deu importância, continuou montando a sua nave espacial de papelão e embalagens de produtos. Aquela invenção foi a mais legal que ele já tinha feito, era tudo bem calculado, bem cortado, bem montado, ele estava orgulhoso de si mesmo. Estava tão bom que o pai notaria, com certeza! Colocou a geringonça na mesa de centro da sala a espera do "Stress" e ficou sentadinho no sofá, aguardando os comentários. Ele sabia que o pai era seco e não tinha jeito com essas coisas de palavras agradáveis, mas teve esperança diante de um trabalho tão bem executado. O pai pensava que ele era meio doido, atrasado, por que vivia pensando em suas próprias coisas e se esquecia dos outros lá fora; também os colegas e o resto do mundo o apelidaram de burro, bobo, "Et' e coisas não muito animadoras, que cortavam seus brios...Mas agora ele ia mostrar que sabia fazer alguma coisa legal.

O pai chegou, jogou a pasta sobre um sofá e se recostou no outro. Pegou o controle remoto e foi saracoteando pelos canais da TV enquanto descansava o corpo para o próximo Round. Júlio ficou ansioso olhando para o pai, imóvel, só os pezinhos tremiam. Será que o pai não veria? O pai nem via que ele estava alí, sentado, nunca viu, isso não fazia mais diferença....Mas a nave ele tinha que ver, não era possível!


De repente, o pai se sentou no sofá e olhou para a mesa de centro, o coração do pequeno Júlio se acelerou e um pequeno sorriso se esboçou no canto de seus lábios. O pai passou a mão sobre a mesa e jogou todo o trabalho do menino para o chão, dizendo?

_Que bagunça, Júlio! Tire essa zona daqui que eu tenho que trabalhar!

Colocou o notebook na mesa e começou a digitar.

Aos 15 anos Júlio saiu de casa, foi morar com amigos. Não deixou bilhete, nem carta, nem e-mail, nem nada... Estava certo de que ninguém sentiria a sua falta, já que ele era um bobo inútil.

Aos 30 anos Júlio se tornou um importante empresário com várias invenções patenteadas. Seu pai não estava lá para ver, aliás, nunca mais vira o filho e se lamentou por não ter olhado para ele naqueles 15 anos. Mas aquelas letras estavam lá, e a maneira de viver do pai também, todos escritos na testa de quem aprendeu muito bem a lição.

Conto III - Tanto amor pode matar


Este tema foi sugerido por Kelly, ela gostaria de ver um conto sobre drogas. Pra você, amiga!

É difícil saber onde erramos na educação de um filho, onde amamos de mais ou de menos, onde o sal foi mais abundante que o açúcar e por que certas escolhas foram feitas, mas o mais difícil é enfrentar aquele momento onde o nosso querido e amado bebê se transforma em uma pessoa desconhecida, em um agressor capaz de tudo para satisfazer as suas insatisfações. Tantas perguntas e acusações foram trocados entre os pais de Nataniel mas nenhuma resposta era satisfatória ou poderia resolver o grande problemas que se instalou naquele lar há alguns meses.

Nataniel sempre teve tudo o que quis, os melhores brinquedos, as melhores roupas, a melhor educação, mas Marly e Renato nunca foram fortes o bastantes para dizer o que não queriam ver, nunca foram claros com as suas regras, nem mesmo as tinham delimitadas dentro de sua casa. Só queriam dar amor incondicional ao seu único filho, tanto amor que ele se sentiu poderoso, como o próprio príncipe Willian. As dúvidas só surgiram no primeiro embate com a mãe, dia triste e negro quando Nataniel entrou feito louco a procura de dinheiro, ameaçando Marly com uma estatueta de metal. A dor que aquela mãe sentiu naquele momento é incomparável a  outra dor ordinária, ela viu naqueles olhos um marginal, um monstro, um desconhecido que tinha ódio e seria capaz de matá-la; aquele não era Nataniel, aquele não era seu filho.

Muitas brigas se sucederam àquela primeira e muito dinheiro foi consumido, além das coisas que Nataniel pode carregar para acalmar os sustentadores de seu vício. Muito sofrimento e desejo de morte invadiram os anseios daqueles pais, que não tinham mais alegria ou esperança de que seu filho pudesse se recuperar. Quando pensaram que nada pior poderia acontecer, receberam a visita de alguns traficantes que queriam cobrar uma enorme dívida que Nataniel fez em nome da coca. Foram amarrados, ameaçados e avisados de que seu filho seria morto em breve se não conseguisse o dinheiro que lhes devia. Após muita tortura psicológica os bandidos deixaram o lugar  e se despediram usando o corpo de Marly e espancando o pobre e indefeso Renato, que não sentiu mais dor do que a que experimentou ao presenciar o abuso sofrido por sua mulher. Depois deste fato juntaram todo o dinheiro que tinham e compraram uma arma para quando aqueles marginais voltassem e tentassem surpreendê-los.

Após alguns dias Nataniel apareceu transtornado dizendo que seria  morto por "Kabeção" e que não teria mais um dia de vida, procurou pela casa algum bem que pudesse salvar a sua vida miserável, destruindo o pouco que ainda restava de dignidade naquele lar. Nada encontrou e ordenou ao pai que fizesse um empréstimo, pois naquela noite Kabeção viria cobrar a sua dívida. Renato não tinha mais nada a perder e decidiu ir até o banco fazer o tal empréstimo. Nataniel fez as "suas malas" enquanto o pai estava fora e se foi. À noite o pai e a mãe foram para o quarto e trancaram a porta, alertas quanto a uma possível visita. Os dois se abraçaram como  há muito não faziam e esperaram pela noite a dentro. Nada  mais importava, se a morte viesse e os levasse, se o mundo alí se acabasse, queriam apenas ter a paz de volta. 

Tarde da noite ouviram alguns ruídos, Renato se levantou ligeira e silenciosamente e pegou a arma que havia comprado, seguiu para a sala onde ficava o cofre. Não se importava com mais nada, queria acabar com aquilo, mesmo que isso significasse acabar consigo mesmo. Chegando na porta viu alguém tentanto abrir o cofre, tremendo apontou para o invasor e deu três tiros certeiros gritando: _Morre desgraçado, me deixa em paz, morre!!! O invasor tombou e o pai reconheceu na penumbra os olhos do antigo e indefeso Nataniel, que cospia sangue e deixava sua alma se esvair lentamente: _ Pai...

A dor daquele pai se acabou naquela hora, por que sabia que iria se encontrar com Nataniel em outro lugar, melhor que este. Foi ao encontro de seu filho e deixou viúva uma mãe que se refugiou na loucura de suas lembranças, amortecendo as suas dores em uma realidade buscada de outros tempos, onde os três formavam uma família feliz e com um futuro radiante.

Conto IV - Os bons morrem jovens


Este tema foi sugerido por meu amigo Gustavo, o Guga. Ele queria uma história sobre um político honesto. Aqui vai! 

Quando os amiguinhos brigavam por alguma questão, Gustavo sempre tentava pesar os dois lados, ponderando, dando razão a quem achava que devia, buscava sempre a verdade justiceira, tanto que às vezes era difícil decifrar de que lado ele estava. Na verdade não estava de lado nenhum, ou melhor, estava do lado de todos, dos rejeitados e desvalidos. Aos 25 anos colocou na cabeça que queria ser vereador, iria contribuir para acabar com a sujeira que havia no governo de sua cidade, criaria leis para que houvesse maior transparência nas contas públicas, ajudaria aos mais necessitados, faria tudo o que ele sabe que se é possível fazer, mas ninguém faz.

Venceu as eleições graças aos votos das eleitoras, pois, neste mundo, aparência conta até no momento em que estamos decidindo o futuro de uma cidade. Ele não quis acreditar que este fosse o motivo de sua vitória, mas sim os ideais de sua campanha. Realmente, o entusiasmo de seus discursos contribuíram um pouco, mas não foram os fatores decisivos.

Tomou posse com a maleta lotada de projetos maravilhosos, ideais nobilíssimos e muita vontade de mudar o mundo, mas o cenário que encontrou não fora um dos mais agradáveis... A sujeira estava tão entranhada ao cotidiano daquela gente, que qualquer um se covenceria de que errado seria não participar de tais práticas fétidas. Gustavo percebeu que o pior problema estava com o povo. Este povo não sabia sequer qual  era a função dos governantes que elegeram, suas mentes ainda viviam no tempo do coronelismo e se deixavam comprar por botijões de gás, transporte para realização de consultas em outras cidades, cestas básicas. Para eles, um vereador seria uma espécie de agente social, com a função de realizar tarefas pequenas e individuais, gastando parte das verbas públicas com tais ajudas pontuais. A maioria deles gastava a maior parte de seu tempo realizando essas tarefas, encaminhando pessoas necessitadas até os setores de assistência social e se beneficiando da ideia de que eles resolveram pequenos problemas. A população ficava agradecida e pensava que estes políticos eram "bonzinhos", por que se dispuseram a ajudá-la. Porém, os projetos, as leis, as ações que poderiam ser realizados para melhorar a vida da população como um todo e definitivamente nunca faziam parte de suas ocupações. Vez em quando, algum vereador roubava um projetinho dos noticiários da TV, que abordava algum problema em voga, para dizer que se preocupava com crianças na escola, com a merenda, com o bullying, e por aí vai.

Gustavo bem que tentou durante um ano e meio lançar seus projetos, mas nunca conseguia apoio dos outros vereadores e muito menos da população preguiçosa que achava tudo chato e perda de tempo. Ele teve raiva do governo que não inseria no programa educacional algum tipo de disciplina que ensinasse sobre os direitos, os deveres, sobre as funções dos políticos, mas teve mais raiva ainda do povo comodista que se contentava com um cobertor ralo no tempo do frio e gastava suas esmolas com bebidas e similares, enquanto seus filhos se prostituíam e se drogavam sem que isso causasse indignação a alguém, muito menos acarretasse alguma atitude do governo. Começou a achar que nem sempre , quem precisava merecia alguma ajuda e que a podridão nunca ia ter fim, nunca ia ter conserto, um círculo sem fim. Cansou-se de dar murros em ponta de faca e decidiu se juntar aos "bons".

Sem mais ideais e esperanças, subiu na carreira política e viajou para o Egito, o seu grande sonho. Enriqueceu e achou que merecia, por que via o que o povo não via, e que se danasse o povo! Deus quis assim e os homens querem assim, então, por que não aproveitar os louros de sua vitória?

Aprendeu a agradar uns e outros e a subir cada vez mais. Algumas vezes parava e ria-se de seus antigos ideais, mas no fim de seu sorriso sarcástico, uma gota de melancolia queria pular e se expor para o mundo cruel.

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