quinta-feira, 25 de março de 2010

Pensamentos inspiradores

A moreia que urinou na areia queimou a mufa com aveia.

Não adianta a bagaça se esconder, sempre haverá um bingolim atrás.

Nem mesmo as lesmas sobem na trepadeira.

Macaco louco põe o pé na tiririca e explora a marguerita.
 
Pra que pular na marafunda se o sostício arregaçou?

Nem a muringa, nem o climatério estancam a carnificina.

Pão com mirra na bandeira se faxina.

O amor escurraça as chagas do cachinbo cariado.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Os quatro do ponto

Entediada, cansada e pensativa comecei mais uma manhã rumo ao trabalho. No ponto de ônibus, onde aqueles minutos pareciam infernais e infindáveis, me distraí por um momento olhando as flores amareladas das árvores que sempre aparecem no mês de março, quando quatro figuras se aproximaram do ponto. e desviaram a minha atenção. Ninguém que estava alí por perto deixou de notar a presença das personagens, mas nenhum deles demonstrou que os observava.

Três meninas , uma escadinha, deveriam ter entre  5 e 7 anos, todas elas com o mesmo penteado, a cabeça repartida em quatro e em cada quatro, uma pituca crespa e despenteada prendida com alguns barbantes. Suas roupas eram notadamente velhas, com alguns remendos e nódoas...A menor, ao se acomodar na calçada, retirou o sapato que já começava a sorrir e pisou sobre ele, sinal de que os pés não tinham o mesmo número. O sapato da mais velha já tinha um sorriso completo, mas as meninas não tinham sorriso, apresentavam um olhar assustado, triste, observador.As meninas mulatas não estavam sozinhas, eram acompanhadas por uma figura titubeante, de olhar vago e movimentos retardados...O pobre homem tentava aparentar dignidade ao fazer o seu papel, mas qualquer vivente notaria que ele não estava em condições de proteger e de servir de exemplo para as suas crianças...O homem negro, magro, curvado e com roupas largas e surradas demonstrava carinho e atenção, o máximo que seu estado permitia.

O ônibus finalmente chegou, as meninas seguiram ansiosas para a porta do carro, mas o pai, advertindo-lhes e querendo parecer exemplar em sua função ali, disse com a voz pastosa:_Calma, calma, tem que ter educação, respeito, calma!_Parecia mesmo exemplar.

Dentro do ônibus, o pai segurou a menor e a do meio se sentou no colo da mais velha, indício de que já tinha o costume de se sentir responsável pelas irmãs. Assim seguiram a viagem até o seu ponto de destino. Chegando lá os quatro se levantaram, o senhor com a caçula nos braços e as outras duas, que seguiam na frente. As primeiras, ao decerem do ônibus demonstraram que haviam aprendido algo com o pai dizendo "obrigado" ao motorista, seguidas pelo pai e pela caçula no colo do pai. Outras vezes vi os mesmos quatro e em todas as vezes os quatro estavam no mesmo estado, principalmente o pai. Devo observar que nessas vezes o relógio marcava 7:30 da manhã.

Segui meu caminho entediante e entediada. Pensei sobre aquela família, imaginei para onde iria naquela hora, de onde o pai tinha vindo, se dormira, se esse era o seu estado natural, se as meninas sentiam vergonha, se tinham comido, se tinham mãe, se precisavam de algo a mais do que podíamos ver...Obviamente não obtive respostas. Só gostaria de que aquela família fosse feliz, e que aquelas meninas guardassem apenas as boas coisas que o pai se esforçava tanto em demonstrar.


terça-feira, 16 de março de 2010

Farinha luminosa


A noite era estrelada, tão estrelada como se alguém tivesse derramado farinha de trigo luminosa num pano escuro. Era tão linda, tão mágica, eu não conseguia deixar de olhar para aquela formosidade.Tinha lá os meus 9 ou 10 anos, e nós costumávamos deitar um lençol na calçada, animados por uma noite quentíssima de verão na jovem Ipatinga, nos aconchegarmos e assim ficarmos por horas olhando, imaginando e nos fazendo perguntas existenciais. A vida me parecia tão misteriosa e os sonhos tão fantásticos e distantes, minha  esperança estava em algum lugar bem longe, talvez lá com aquela farinha fluorescente... Demoraria tanto até que eu me encontrasse, que eu descobrisse os segredos do universo! Até pensei ser imortal tamanho era o tempo que ainda tinha até descobrir e ser alguém. Eu não existia, eu era um sonho, um futuro.

Como o cheiro daqueles dias eram incomparáveis, tão doce! O meu coração disparava com os meus devaneios, agitado pelas noites acaloradas e alimentado pelas estrelas animadas.

Olhando aquele céu eu me transportava para o além de mim, para onde não existia tempo, para onde o mundo era como nos sonhos, perfeição e sensações agradáveis permeiando os meus passos; Lá, num futuro ou num passado, eu era feliz.

Quantas estrelas cadentes eu vi! Quantos desejos elas levaram consigo, quantos sonhos, quanta esperança! Por que será que nunca mais vi estrelas cadentes? Será que não existem mais pedaços de corpos celestes vagando pelo céu? Será que todos os desejos já foram feitos, por isso elas não tem mais razão de ser? Será que eu apenas deixei de acreditar e fiquei muito cansada para olhar pro céu?

Eu não olho mais as estrelas, nem me pergunto o Porquê de nada e nem me transporto para o além. Fiquei muito cansada com os problemas de gente grande e achei que isso era besteira, resolvi ficar no presente mesmo. Amanhã, quem sabe eu me canse desse pano negro e resolva jogar farinha fluorescente por cima dele, voltando a sentir todos os aromas e sensações que experimentara por horas a fio deitada naquele simples e surrado lençol?


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