quarta-feira, 21 de junho de 2017

Que identidade?


Cada um é fruto de sua nascença e "crescença", ninguém consegue fugir totalmente do universo em que foi criado, do universo constituinte e constitutivo de seu próprio ser. Mesmo proferindo não possuir religião, gosto de dizer aos que amo "fica com Deus", "dorme com Deus" e sempre clamo por Nossa Senhora nos momentos difíceis, sem falar em Jesus. Não posso fugir de mim mesma, da minha cultura, ela está em mim, mesmo em minha não-aceitação, mesmo quando não consigo mais rezar a Ave-Maria sem pensar o quanto as palavras não fazem mais sentido para mim. 

Personalidade é algo que se constrói, e dela fazem parte elementos diversos, de variadas experiências que nos levaram a adotar um ou outro comportamento; dela também fazem parte o que vivenciamos como sendo o correto, o normal, o corriqueiro e único, como a visão de mundo que possuímos. A nossa visão de mundo nunca será a mesma que a de um indiano, por exemplo, pois tudo o que ele experimentou desde o nascimento, as formas como tudo foi construído dentro de seu mundo, as superstições, os mitos fundacionais, os heróis, as brincadeiras de infância, as piadas, as referências, os sabores, a rotação das estações climáticas, as celebrações, absolutamente tudo é diferente. Mesmo que esse indiano vá para a Europa, ele continuará tocando os pés dos mais velhos e talvez preferirá que seus pais escolham sua noiva, porque ele é a sua cultura, mesmo que a negue.

Escolhemos também ser o que nos parece conveniente, e como diz Stuart Hall, as identidades do homem pós-moderno são descentralizadas, fragmentadas, e como diria Bauman, líquidas. Além do que está plantado em nós por nossa cultura de maior permanência ou expressão, há os traços do que fomos colhendo ao longo de nossa existência, adotamos o que nos parece melhor, conveniente, apropriado, legal. Assim acontece quando, por exemplo, desejamos ser um profissional parecido com esse ou aquele, falar como ele, ter a mesma segurança e até trejeitos. É assim quando entramos para um grupo na adolescência e nos esforçamos para usar o mesmo vocabulário que a maioria, ou nos comportar da mesma maneira que ela, vivendo as mesmas experiências. Escolhemos, por que nos parece conveniente. 


Vi uma vez uma experiência que fazia uma pessoa entrar em uma sala para uma suposta entrevista de emprego, e lá se encontravam diversos atores. Toda a vez que tocava um sinal, os atores se levantavam. A pessoa que estava lá sem saber de nada começou a fazer a mesma coisa, acompanhando os demais. Não perguntou sobre os motivos, apenas seguiu a boiada, e assim nos comportamos muitas vezes, seguimos a boiada. Penso que até mesmo Mogli tenha moldado sua personalidade baseando-se nos lobos, se isso for possível. Na verdade, somos frutos de um amontoado de coisas que nos maltratam, nos alegram, nos oprimem, nos inspiram e nos fazem analisar como devemos nos comportar na sociedade. Aliás, O que mais nos impulsiona  e nos molda são as piores experiências. O mais importante, nossa personalidade não é estanque, ao menos para os que possuem a consciência dela.

Obviamente, a escolarização pode mudar a nossa maneira de ver o mundo e nos fazer desejar fugir de uma cultura que a lógica nos diz ser inadequada ou estigmatizante.  Lutamos conscientemente para nos livrar de traços vistos como negativos na sociedade (teorica e ideacionalmente), como o racismo, o egoísmo, o machismo, a homofobia, a preguiça, e tantas outras questões que vão tomando lugar no rol da negatividade, de acordo com cada tempo. Lutamos para ser os melhores representantes das ideologias que adotamos, mas, muitas vezes, nos vemos traídos pela cultura que vive em nós, pela visão de  mundo único que temos como verdade absoluta. Lutamos para não dizer palavras preconceituosas, para agir de forma igualitária, respeitar as diferenças e não fazer com o próximo o mesmo que não gostaríamos que fizessem conosco, mas, algumas vezes, não escapamos e corroboramos nossa cultura, descarada, ou disfarçadamente. Isso acontece quando deixamos escapar termos ou julgamos que os danos que causamos aos outros sejam menores que os que nos causam. Isso acontece quando um homem diz ser normal sair para beber com os amigos, mas que para a mulher, é diferente. Isso acontece quando pregamos o feminismo, mas agimos de forma contraditória com nossos filhos. Isso acontece quando dizemos que o cabelo do outro é ruim, ou nos vangloriamos por nossos filhos tirarem foto abraçados com um coleguinha negro, dizendo, ele é pretinho, tadinho. Isso acontece quando, se somos nós, é permitido, mas se é o outro, não.

Não há nada de errado ou fora da normalidade em apresentar traços culturais dos quais não gostamos, isso é parte de como o ser humano lida com seus conflitos internos e de como ele reformula a todo o momento a sua identidade. Estou falando aqui sobre as pessoas que possuem a consciência de si mesmas e de sua sociedade, e, como tal, tentam sempre se adequar e a se aprimorar como indivíduos sociais, pois existem ainda as pessoas que procuram permanecer com suas certezas infantis, não realizando o mínimo esforço para se adequarem a qualquer outra realidade. A essas pessoas, não foram apresentadas outras realidades, ou se foram, nada fora absorvido.

O importante é que, para os que possuem a consciência de si mesmos e da existência de outros universos, para aqueles que desejam se adequar e a ser representantes do que acreditam, a personalidade estará sempre aberta e pronta para adequações, pois ninguém nasce pronto, como se acreditava na Idade Média.



terça-feira, 13 de junho de 2017

Tolerância - II


Acreditar, segundo o dicionário do Aurélio, significa:

Dar crédito a.

2 - Fazer criar crédito a.
3 - Abonar alguém.
4 - Autorizar junto de alguém.
5 - Crer, ter fé.

, segundo o mesmo dicionário:

Adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro.

2 - Sentimento de quem acredita em determinadas ideias ou princípios religiosos.
3 - Religião, culto.
4 - Uma das virtudes teologais.
5 - Estado ou atitude de quem acredita ou tem esperança em algo.
6 - Fidelidade.

Razão, dentre outros significados:

O conjunto das faculdades intelectuais.

2 - Fonte do raciocínio.
3 - Capacidade para decidir, para formar juízo ou para agir de acordo com um pensamento.
4 - Comportamento ou pensamento que se considera justo, legítimo ou correto.
5 - Justiça, dever, equidade.
6 - Raciocínio que conduz a outro ou a uma conclusão.
7 - Aquilo que explica alguma coisa ou que faz com que algo exista ou aconteça.
8 - Prova, fundamento.

Quando eu era criança, ouvi dizer que fé é crer sem precisar de provas, e que não deveríamos ser como Tomé. Ainda na infância, via a minha avó se cercar com objetos religiosos, como oratórios repletos de imagens, presépios, quadros de santos e Santa ceia, ouvia suas superstições, seus "causos", suas rezas infinitas pela manhã e pela noite, suas ladainhas com as amigas. Moro em uma das cidades fisicamente mais católicas do Brasil, e todos que conheço, ou a maioria absoluta deles, tem certezas religiosas. 

Um dia, em Bambuí, entrei em uma igreja para experimentar a hóstia, já que ainda não havia tido o prazer. Se os conhecidos me vissem, iriam dar "sete-credo" e me excomungar para todo o sempre, uma mulher que nunca se confessou ou fez catecismo. Como pode, nem quando se casou? reclamar de quê, se o padre da época, além de ter se atrasado para a cerimônia, não seguiu os protocolos, além de beber, fumar, e ter se afastado para outra paróquia após supostamente ter engravidado uma fiel?

O que é sagrado? Sagrado seria tudo o que nos é intocável, como a casa, a mãe, deus, e até mesmo o time de futebol. Alguns dizem que o capitalismo é o novo sagrado da modernidade, ou a nova religião, que começamos a seguir cegamente,  a servir, a cultuar. Sagradas podem ser as ideologias fixas, que não se movem e não estão abertas para contestação. Cada um possui o seu sagrado e suas convicções que dirigem a sua conduta. Precisamos de coisas intocáveis, sagradas, de paixões, para que nossa existência adquira sentido. precisamos de certezas para que possamos caminhar sem sentir que estamos em direção ao nada. Precisamos de magia, para sentir que o impossível não existe e que, de repente, algo possa nos salvar. Precisamos de demônios e de macumbas para atribuir nossas desgraças. Nessas horas nos esquecemos de Sartre e de nossa responsabilidade sobre nossas próprias escolhas.

No planeta Terra, há uma infinidade de conceitos e de costumes, todos derivados de outros e de outros, que representam de forma mística os nossos desejos e medos; são como tábua de salvação para a banalidade existencial. Bruxas, anjos, demônios, duendes, fadas, orixás, deuses  hindus, pedras da sorte, imagens, velas, sacrifícios, rituais de todos os tipos, orações, Allah, regras, regras, e mais regras, e muito, muito mais que nem imaginamos, tudo isso coexiste e todos que em cada coisa crêem, possuem suas certezas sobre do que fazem parte.

O que existe e o que não existe? Posso confiar plenamente em meus sentidos e supor que não existam sentidos que não possuo? Existe magia? Experimentarei uma epifania, seja isso magia ou sensação gerada por alguma alteração cerebral? Não sei. Mas não me contento com explicações infantis como com o conto totalmente sem pé nem cabeça de Adão e Eva, o qual ninguém que conheço ousa questionar.

A dificuldade é não confundir as pessoas com suas paixões, porque suas paixões as definem, definem a maneira como elas vão encarar a vida, os problemas, e a toda a humanidade. Aprender a deixar ser, já que ninguém tem certeza de nada, embora achem que tenham, por que certezas, como disse em "Tolerância-I", não podem ser contestadas. Deixar ser o que quiserem, se isso não atingir o meu sagrado. O sagrado de um termina onde começa o sagrado do outro. Amém.

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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Tolerância


Tolerância é a condição mais difícil de se assumir, mesmo quando um dos pilares da educação seja construído com os moldes da aceitação das diferenças. Até mesmo a certeza de que nada é certo, algo contraditório, mas plenamente usual, nos leva a assumir posturas intolerantes diante dos crédulos de terem encontrado a verdade. Todos os livros que possamos citar dentro de nossas afirmações, todas as pesquisas que possamos utilizar nas argumentações, são representantes dos avanços que a humanidade adquiriu, mas ainda estão longe, muito longe de serem a verdade absoluta, podem ser, no máximo, um apontamento para alguma direção, que ainda não tem destino certo .Se houvesse alguma verdade absoluta, ela não seria passível de contestação, nem tampouco, sofreria pela falta de provas.

Os seres humanos, mesmo quando não pensam serem os únicos pensantes no universo, sempre superestimam a própria humanidade e esse sistema de prazeres e de dores que criamos e no qual vivemos. Os extraterrestres e os anjos caídos sempre se apaixonam pela humanidade e sua suposta complexidade, chegando a abrir mão de uma imaginada vida sem exaltações ou sensações para se tornarem humanos, ou quase humanos, na maioria das ficções. A humanidade, segundo ela própria, é a melhor coisa já criada por Deus, ou por algum acidente físico-químico. Até mesmo Deus tem a imagem e semelhança do homem, e não o contrário. Começa desse modo a supervalorização de si mesmo, levando tudo o que está fora a ser encarado como inferior, como errado. O errado é sempre o outro.

Acreditar em Deus é uma escolha inconsciente, ou não. Sentir Deus, também pode ser inconsciente, assim como ver fantasmas, ETs, anjos, demônios, ou ser possuído por entidades "candombléticas" e crer em macumba. Para qualquer uma dessas possibilidades, há de haver previamente a crença, o conhecimento da possibilidade de acontecimento.

Não tenho ânimo aqui para falar sobre as alterações cerebrais diante de estímulos visuais, sonoros e outros, até porque nem tenho a competência. Assim como eu não tenho a certeza de que todas as coisas fantásticas existam, como as fadas, eu também não posso provar que elas não existam. Mas a constatação de que algumas pessoas confiam plenamente na existência de Adão e Eva em nossa ancestralidade, me irrita profundamente, e o motivo da irritação é o mesmo que atinge aos que possuem suas certezas produzidas pelas crenças contra a minha negação. Estarei, eu, sendo superior, agindo da mesma forma intolerante que os crédulos agem com relação ao meu ceticismo? O que quero colher plantando o mesmo que todos os que possuem certezas inabaláveis, usando a minha incerteza inabalável?


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Amar é decisão




Amar é decisão. Decisão difícil, porque amar não é aquilo que acontece logo no início, mas aquilo que continua a acontecer depois que a paixão ardente das certezas se desvaneceu e as incertezas das revelações começam a chegar. Decidir amar acontece naquele momento em que a idealização termina e nos deparamos com a realidade de todo e qualquer ser humano, com as coisinhas irritantes do dia dia, com as grandes coisas que foram escamoteadas pela intensidade da paixão primeira. Decidir amar é pesar o bom e o ruim e escolher que o bom vença, pois é mais significativo; decidir amar, é tentar ver com os olhos do outro, e tentar minimizar a dor do outro sem que isso nos prejudique. Decidir amar é decidir por uma nova vida, com todos os ganhos e as perdas, como em qualquer situação que escolhamos. Decidir amar é abrir mão de sonhos que eram individualizantes e construir novos sonhos. Decidir amar é ter a capacidade de ao  menos perceber que as vezes é preciso tentar mudar a si mesmo e a abrir mão de coisas que não são tão importantes. Decidir amar é priorizar o amado, porque sem a prioridade, é melhor seguir sozinho e fazer todas as escolhas sem consequências aos outros, deixando que o outro seja amado como deseja. Decidir amar é decidir entrar em um compromisso e se comprometer. Não se trata aqui de amor à humanidade, mas o amor que resolvemos dedicar a alguém que nos acompanhará por um determinado período. 

Não creio em poliamores, mas isso é crença e cada um define a melhor maneira de levar a vida. Mas quando alguém decide amar o outro, e esse alguém também decide amar, há de haver um compromisso entre ambos. Para aqueles que acreditam em amores únicos e exclusivos, isso leva a uma escolha e a uma decisão. A decisão de amar e de enfrentar as benesses e consequenciais de se amar uma pessoa, de corpo e de alma.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Comunicação proxêmica




Eles se namoravam há três meses e já estavam mais unidos do que carne e unha. Não programavam nada sem contar com a participação um do outro, estavam sempre se contactando durante o dia através do celular, utilizando todas as opções possíveis. Não viam a hora de juntar tudo de vez e acabar com a saudade infinita que queimava mesmo quando estavam juntos, mas sabiam que se separariam depois de algumas horas. A ânsia pela proximidade era tanta, que sentiam dor física de vontade de se reunirem novamente nos momentos em que não podiam estar perto.

Elisa era dessas românticas que dariam a volta ao mundo pelo ser amado e fazem dele o centro de suas existências. Felipe era daqueles que ainda acreditavam no amor, amor pelo parceiro e pela humanidade, daqueles que possuíam fé. Elisa possuía fé apenas em si mesma e em seu amor.

Felipe trabalhava como professor de teatro. Quando criança, sonhava em ser um grande ator, brilhar nas grandes telas de cinema, mas a profissão não era só brilhinhos. Aos 34 anos, era hora de fincar o pé na realidade e trabalhar como podia, dando aulas para os futuros brilhantes. Elisa também gostava das artes, tocava violino, mas seu trabalho consistia em enfadonha rotina como secretária em uma grande empresa. Aos 30 anos, também estava na hora de parar de sonhar e de brincar e começar uma vida familiar própria. Felipe era o seu príncipe encantado.

Era época da conclusão de curso da turma de Felipe e eles organizaram uma festinha. Obviamente, Elisa fora convidada para participar do momento com o seu amado, pois um sempre queria a presença do outro em momentos especiais. Elisa colocou a melhor roupa, a menos formal, afinal eram alunos de teatro, o seu batom mais vermelho, e foi com o seu amado ao evento.Chegando no local, os dois foram caminhando entre os convidados, todos jovens, serelepes, coloridos e autênticos, quando uma mocinha veio esfuziante de braços abertos para saudar o rapaz. Felipe abriu os braços, deu um forte abraço e beijou o rosto da bela moça, e assim fez com muitas outras. Elisa ainda não conhecia o comportamento desprendido de seu amado, e sua expressão não conseguiu disfarçar o descontentamento com a situação presenciada. Tentou não emburrar, mas não teve muitas palavras naquela noite.

Elisa era uma pessoa reservada e sabia o que um simples sorriso dava a interpretar a homens afoitos por uma aproximação, tanto que deixou de sorrir ao cumprimenta-los. Era nascida em um povoado em que as pessoas não tinham o hábito de se tocarem muito, especialmente se eram de sexos opostos. Na verdade, o povo era tão acabrunhado, que muitos pais não sabiam abraçar os filhos e assim viviam. Em sua mente, beijos e abraços seriam destinados apenas a pessoas muito íntimas, como familiares  e amantes. Na mente de Felipe, beijos e abraços eram demonstrações normais de afeto a qualquer ser humano. 

Elisa pensou muito sobre o acontecido e se perguntou se estaria certa em sentir profunda irritação pelos atos de seu grande amor, mas não encontrou respostas. Se perguntou se a maneira que ele agiu seria normal e se ela não estaria sendo muito radical e possessiva, se torturou nesse questionar. Depois de algum tempo, deixou de lado esses sentimentos e voltou a se grudar no seu amado, como sempre. Mas a paz não durou muito.

Dessa vez foram em uma festa dos amigos de Elisa. Havia amigos íntimos, colegas e conhecidos.Tudo correu bem e, no final, uma de suas colegas de trabalho pediu que o casal lhe desse uma carona, pois morava no caminho. Ao parar em frente à casa da colega, Felipe desceu e abriu a porta para que ela saísse, a abraçou e deu-lhe um beijo no rosto.  A colega sorriu desajeitadamente e olhou para o rosto de Elisa, coisas que acontecem em frações de segundos e que quase sempre, apenas as mulheres percebem. Elisa seguiu calada, refletindo se finalmente colocaria a sua insatisfação para o seu amado. Nessa noite, Elisa dormiria na casa de Felipe, pois no dia seguinte começaria um curso que funcionava próximo a casa dele. Chegando lá, Felipe perguntou:

_ O que foi, Elisa? Por que você ficou calada toda a noite?

Elisa refletiu e resolveu dizer logo o que a incomodava, mesmo que estivesse errada:

_ Felipe, o negócio é o seguinte, eu não acho legal você ficar beijando e abraçando todas as mulheres que você encontra pela frente, até mesmo pessoas desconhecidas.

_Quem é que eu estou beijando e abraçando? Está ficando louca?

_ Ah, amor, você sabe! Toda mulher que você encontra tem que ficar dando beijinho, você acha isso normal?

_Não é assim, não!

_ É assim, sim!

E detalhou todos os ocorridos. Felipe se justificou, disse que isso não tinha nada de fora do comum, que agia normalmente como a maioria das pessoas, e que Elisa estava vendo chifres em cabeça de cavalo por causa dos ciúmes. Ele não sentia que desrespeitava nenhuma das mulheres, que estivesse flertando com elas, ou desrespeitando Elisa. Nessa noite, cada um dormiu em seu canto, sem se encostar. A noite foi longa e o frio foi grande. Sentiram falta de ficarem grudados, como sempre, a ponto de mal poderem respirar, mas algo os separava. Que vá se grudar com aquelas vagabundinhas, pensava Elisa. A proximidade tem  relação com muitas coisas.

O tempo passou e Elisa tentou relevar os sentimentos. Já estavam planejando alugar uma casa e comprar algumas coisas para morarem juntos. Se amavam e se comunicavam muito bem intelectualmente e fisicamente, mas a maneira como os dois viam as relações e os limite de proximidade com outras pessoas se diferiam, e isso causava atritos.

Um dia, saíram juntos para escolherem algumas coisas para casa, e ao andarem pela rua, passaram perto de uma moça que morava próximo à casa de Felipe. A moça estava sentada na calçada, e conhecia Felipe apenas por eles serem  meio vizinhos. Felipe passou, bateu com a mão em uma de suas pernas e disse: _ Oi, tudo bem? A moça dirigiu aquele olhar de fração de segundos à Elisa e respondeu ao cumprimento. Elisa se conteve, mas algo viria mais adiante. "Quem com ferro fere, com ferro será ferido", pensou Elisa dentro de suas maquinações maquiavélicas. "Vejamos até quando tudo é normal". Compraram o que deu e combinaram de se encontrarem mais tarde com alguns amigos de Felipe. 

Elisa se vestiu para matar, usou o seu maior decote e o seu batom fatal, perfumou-se como há muito não fazia. Felipe sentiu-se enciumado, mas não quis demonstrar nada. Quando chegaram ao bar, os amigos já estavam lá. Elisa abriu os braços para o amigo do amado e em seguida tascou-lhe um beijo na bochecha, que ficou marcada com o vermelho paixão. O amigo olhou para Felipe, não o olhar de fração, mas o olhar longo e desajeitado, sem lugar. Elisa continuou a agir normalmente, sentou-se enquanto todos os outros continuavam o bate-papo animado. Felipe recusou-se a comentar o fato, mas sua expressão era clara. Pediram uma cerveja, o papo ficou mais animado, e enquanto conversavam, Elisa tocava o amigo de vez em quando, no ombro, na perna, para chamar-lhe a atenção. Em um dado momento, Felipe sentiu-se mal e quis ir para a casa. Do nada. Disse ser mal estar súbito. Foram. Ficou calado o tempo todo. Dizia ser nada, não, só não estava bem. Elisa sabia o que era, era o mesmo que ela havia experimentado inúmeras vezes, mas quando é com o outro, sempre é normal e a pimenta não tem ardido.





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