quarta-feira, 12 de abril de 2017

Estupefata


Aquele sentimento que exige de mim que o observe a cada instante,
Que admire seus olhos, por vezes cansados, outras, incendiados,
Que me pega sorrindo no admirar, no pensar, no amar dolorido,
Que me arrebata.

Aquele sentimento que me força a não resistência do querer,
Do desejar espremer entre os dedos e os lábios, a essência,
Da ânsia de sugar aquela vida que dá sentido à minha existência e
Que também me mata.

Aquele sentimento de urgência de possuir e de ser possuída,
De engolir, mastigar, saborear, entrar, unir, de ser fundida,
De sentir todos os cheiros e gostos, até sentir mais nada,
Que me põe estupefata.

Arrebata-me, mata-me, estupefica-me,
Até que exausta, lance-me na paz, 
Sem dor, sem ânsia, sem exigência,
Serena, desejando sempre mais.
 
 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Certas Marias Molambos


Certas coisas cabeludas 
Quebram almas a crer,
Rogue rito com arruda,
Ou grite o riso a morrer.

Certas Marias Molambos,
de olhos vesposos e sonsos,
Deveriam deixar de meandros
E fugir aos seus escombros.

Certas mariposas cadavéricas
E sanguessugas poliglotas,
Que se julgam psicodélicas,
Não se veem como marmotas.

Certos anjos de candura
São ratazanas na gordura, 
São a escória da escória,
Da escória, da escória.

Certos lixos da humanidade
deveriam pingar a bondade,
Nos deixando infinitamente
Sem sua presença doente.



quinta-feira, 30 de março de 2017

A teia de aranha


Eram amigas desde a infância, a grandona e a baixinha, como as chamavam. Mas a baixinha não se sentia tão amiga assim, sempre subjugada, analisada, recriminada, por que era fresca e tinha inclinações artísticas. A altona era, por sua vez, imperiosa e objetiva, as coisas eram sempre pretas ou brancas, não havia bolinha no yin e no yang. Parecia que a estatura era a materialidade de sua personalidade autoritária e assertiva.

A alta era a Renata, a baixinha era a Clara. Durante a adolescência, vivenciaram muitas aventuras, mas nem tão venturosas, por que Renata não era dessas de pagar mico. Quando bebia além da conta, queria obrigar a amiga Clara a ceder a qualquer um que julgasse digno. Uma vez, quase forçou a amiga a ficar com um caboclo 20 anos mais velho cuja aparência causava em Clara repugnância, além de estar bêbado como Renata. Acusaram-na de infantil e disseram que ela nunca seria adulta se não fizesse aquilo o que queriam, que era ficar de beijos, abraços e esfrega com um homem que deveria se envergonhar por aquela situação. Não era adulta, mas não iria fazer o que não queria. Essa era a Clara.

Apesar de se sentir intimidada na presença de Renata, Clara sabia que podia confiar seus segredos a ela, e sabia que poderia contar com ela nos momentos mais difíceis, como quando ela se engraçou com um colega de trabalho que tinha namorada. Na verdade, Renata é que fora a demônia da ocasião, tentou tanto os dois, que em uma confraternização de trabalho, os dois, Clara e o comprometido,  caíram em tentação puxados para o canto pelas próprias mãos da amiga. Nessa época, as amigas trabalhavam juntas em um supermercado, lugar onde passaram grandes momentos, inclusive alguns onde colegas brigaram com Clara por não gostarem das caricaturas que ela havia feito deles. A briga com os colegas não foi pior que a reação do chefe quando viu aquele elefantinho com sua cara e seus tenisinhos de esporte no canto de uma nota fiscal velha. Rua foi pouco.

Clara adorava cantar "Renata ingrata" e fazer passos bregas para irritar a amiga, Renata a chamava de Clara de ovo. Apesar de tudo, as duas tiveram pouquíssimas brigas durante a vida. Mas a vida não tem nada definido ou definitivo, percebemos isso quando já estamos tão longe, que olhar para trás nos faz ver apenas uma sombra de nós mesmos, e os momentos vividos, os que ainda permaneceram nas desbotadas memórias, parecem parte de uma anedota do passado contada por um tio fanfarrão. Foi assim que, aos quarenta e poucos anos, Clara pensou em Renata quando ela voltou à sua vida. Em tempos modernos de comunicação virtual, bastaram alguns caracteres e muita determinação para que Renata a encontrasse em alguma dessas redes sociais. Foi estranho, já havia se passado quase 20 anos depois que Clara tinha viajado para um intercâmbio a fim de estudar artes. Renata havia ficado, na mesma cidade, com as mesmas pessoas, as mesmas ideias e ideais sobre a vida e o mundo.Clara estava morando em cidade vizinha. Não tinha filhos, tinha um marido, também artista, os dois vivam em seu atelier fazendo suas artes. Eles tinham também o Gertrudes, um cachorrão vira-latas cor de mel magnífico. Renata tinha três filhos e um emprego em uma secretaria da cidade. O marido era técnico em uma dessas indústrias gigantes. Ambas diziam-se felizes em suas vidas.

Após lembranças do passado, das quais Renata era a fonte geradora e Clara admiradora e incrédula de sua própria participação nelas, resolveram encontrar-se. Renata teria folga, iria à cidade da amiga.

Clara comprou uns biscoitinhos caseiros, licor de cacau, chá de ervas, fez leite queimado, bolo aromático e alguns salgadinhos. Renata chegou às 13:30, como combinado, foi direto ao endereço. Os maridos começaram a conversar e foram para fora de casa, ver o movimento, enquanto Clara arranjava os quitutes. Renata sentou-se na cadeira de palhinha, olhou a decoração colorida e esvoaçante, viu algumas teias no canto cheia de cadáveres de ex-jantares e disse:

_Está que nem uma árvore de natal, dá para pendurar umas bolinhas ali.

Clara apenas sorriu. Viu o abismo entre os dois mundos, que antes não percebia. Viu a pobreza daquela alma e como aquela alma havia deixado de evoluir. Aquela pessoa estacionou-se em sua adolescência, e aquela época era a única que existia para ela. Parecia morta, um exoesqueleto de uma barata. Não eram amigas. Não, mas não deixaram o carinho do passado morrer. Aquela pessoa fora importante em sua vida, mas não fazia mais parte de sua vida. Eram duas almas que em nada mais se conectavam, a não ser por momentos dos quais Clara possuía vagas lembranças.


sexta-feira, 24 de março de 2017

É normal ser dependente da internet


Quando inventaram a câmara de bronzeamento artificial, todos queriam usar, estava na moda e parecia seguro. Hoje, muitas pessoas desenvolveram câncer de pele e até perderam a visão por causa do abuso de tal artifício. Lembro-me disso quando questiono meus filhos sobre o abuso do uso da internet e eles me dizem que todo o mundo só fica na internet. Argumentam que não têm nada para fazer e que não tem ninguém com quem fazer algo, todos estão lá. Chego em casa, sinto desespero. Vejo todos com as colunas arqueadas e olhos fixos no celular, digitando freneticamente ou soltando gargalhadas. Quando assistem a televisão, não assistem, ficam se inteirando sobre o programa com outras pessoas na internet. Quando está acontecendo algo importante, precisam se expressar através das redes sociais, terem a voz ouvida e comentada. Não estão nem lá, nem cá. Ninguém nunca está onde está, e se está com alguém aqui, o deixa para estar com outro lá, e se esse outro vem para cá, também é abandonado, porque o que importa é o meio, não o fim.

É difícil estar com as pessoas, só com elas. É difícil por que exige esforço e atenção, exige reflexão mais profunda para preencher alguns silêncios. Exige olhar, exige toque, exige interação. Na internet, o tempo é preenchido com vastas opções e inúmeras janelas, sem precisar mover um músculo da cabeça. Estáticos, zumbis, múmias, pedras, próprias máquinas.

O problema é que isso é considerado normal. É normal ser dependente do celular, passar o dia inteirinho olhando para a tela e ficar a madrugada acordado, conectado. É normal ficar tirando selfies o tempo todo. É normal ficar conectado no Facebook e dividir a vida com o mundo inteiro, como se fôssemos celebridades. É normal deixar que qualquer pessoa venha nos importunar e perturbar nossa rotina. É normal ficar horas conversando com pessoas com as quais não temos objetivos, ou mesmo, amizade. É normal deixar as pessoas de lado para dormirmos com o celular. É normal deixar de sermos um ser humano para nos tornarmos um ser, um personagem fabricado através de fotos, fatos, discussões e boatos. É normal ser escravo.

Se é normal, eu não sei. Sei que não é fácil não ser escravo. Sei que não é fácil não se fascinar e se deixar levar pela magia das possibilidades infinitas da internet e pelo entusiasmo da satisfação pessoal oferecida pelas redes sociais. Não é fácil interagir, se mover, falar, cantar, brincar, ler livros, passear e olhar o mundo. Não é fácil discutir relação. Não é fácil desenhar com os filhos, se concentrar. Nem sei se é assim que o mundo deveria ser. Eu só sei que o mundo atual me deprime, e que não posso sair dele. Se daqui a alguns anos, as consequenciais desse uso e abuso aparecerão, não sei. Quando inventaram a impressão de livros, creio que muitos também se sentiram como eu.Talvez eu seja uma visionária, ou talvez, uma retrógrada. Mas, cada um precisa tomar suas decisões, é a vida que voa. Vida que voa.


Sobre a dependência das tecnologias - Padre Fábio de Melo

Eu não sou religiosa, mas algumas mensagens são válidas, não importando de onde venham.


Cultive a intimidade - Pe. Fábio de Melo - Programa Direção Espiritual 22/03/2017

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