sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O ser tem que ter brio!




De acordo com o dicionário online Aulete, brio quer dizer: "Sentimento da própria dignidade e valor; AMOR-PRÓPRIO". 

O ser tem que ter brio! Ter brio significa ter consciência de seu próprio valor, é não aceitar ou fingir aceitar pessoas ou situações que digam o contrário. Ter brio quer dizer ter o poder de dizer que não aceita determinadas coisas  que fazem mal, ter a dignidade de se valorizar. Para ter brio, não é necessário ser mal-educado, mas é necessário ter coragem para exigir a dignidade que lhe pertence.

Quem tem brio, não finge que nada aconteceu, como se o seu ser não tivesse sido usurpado, estuprado, roubado, arrastado pela lama; quem tem brio não permanece em uma situação que lhe causa negatividade. Quem tem brio, não mantém relações com quem o prejudicou ou traz más lembranças e sentimentos. Quem tem brio, não se deixa passar por quem não tem.

Quem tem brio é dono de sua vida, de seu destino, de sua dignidade. Quem tem brio, não precisa se submeter por educação. Quem tem brio, é dono de si.

Quem tem brio não vai se confraternizar com demônios, nem vai sorrir para salafrários. Quem tem brio não finge. Quem tem brio, sabe que ninguém pode se sobrepor a si mesmo. Quem tem brio, taca o foda-se quando preciso e quando deve.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Prosa íntima


Não é fácil a transição que alguns sofrem quando perdem o seu mundo real, (que na verdade era imaginário ou ilusório) e caem em um novo mundo, o mundo de Alvares de Azevedo. A beleza de tudo o que vivemos, através dos programas de televisão, se revela arma de manipulação, alienação, descobrimos que fomos enganados o tempo todo. Descobrimos que a maioria das pessoas está disposta a levar vantagem acima de tudo e de todos; descobrimos que não existe espírito de natal, que não há renovação e, que, embora sempre soubéssemos, morreremos e a vida continuará igual. Começamos a ler os olhares, as palavras, os gestos, começamos a ver melhor o mundo, e isso não é nada bom. Percebemos como tudo sempre é encarado com maldade e malícia, e como a maioria realmente age com maldade e malícia. Tornamo-nos incrédulos e amargos.

O poema de Álvares de Azevedo ilustra perfeitamente o meu desgosto com a humanidade e a minha descrença na salvação humana  e na paz mundial. Podemos dizer que o tempo propicia a evolução na sociedade, na maneira como ela lida com certos tabus;  a sociedade cria leis e as destrói, mas no fundo, cada ser humano continua o mesmo, sendo capaz de realizar as maiores atrocidades para ser sempre o melhor de todos, ter o máximo de poder possível.

Há seres humanos que acreditam no amor e na possibilidade de se criar uma sociedade evoluída, de paz e de respeito entre os indivíduos, propiciando um desenvolvimento social e humano, mas eu não sou um deles. Talvez, daqui a milênios, as pessoas possam se convencer de que o bem comum significa melhora na qualidade de vida individual, porém, qualidade de vida é um conceito que pode ser considerado relativo, já que cada um pode definir o seu nível de acordo com diferentes critérios. Na verdade, estamos falando da possibilidade ou não de se enfiar na cabeça dos seres humanos o conceito de qualidade de vida que englobe direitos comuns a todos, de não privação de necessidades básicas, além de o direito ao lazer, que também pode ser considerado como necessidade básica. Mas o que seria lazer? Viajar para Paris, ou ir ao cinema, ou ao bar tomar uma cerveja? Todos merecem ir a Paris? Lógico. Mas como propiciar tamanha igualdade que englobe todas as necessidades? Eu é que sei? nem quero saber. 

Eu só sei que estou de saco cheio de tudo. Os versos íntimos, são os meus versos.

Há pessoas que se enojam com o mundo, assim como eu. Há pessoas que não fazem parte desse mundo enojante. Há pessoas que não fazem noção que exista esse mundo enojante. Por essas, ainda suporto a existência e a socialização. Por essas, não perco a esperança de bem-aventurança, mesmo que em micro escala. Porque, pelas pessoas que vi catarem os defeitos dos colegas de trabalho, espionarem suas sacolas, pelas pessoas que vi roubarem projetos, subornarem com cestas básicas, pelas pessoas que vi roubar seus próprios parentes e continuar a sorrir, pelas pessoas que falsificaram empenhos destinados a obras sociais para financiar futilidades, pelas pessoas envolvidas com drogas e que eram coordenadoras de coisas relacionadas às crianças, pelas pessoas que se apropriaram de coisas alheias, que mentiram, que sentiram prazer em rir das desgraças dos outros, que deixaram o filho passar fome fingindo serem pais exemplares, pelas pessoas que vi trair os próprios amigos, os maridos, as esposas, os namorados, pelas pessoas que vi falsificando dados da própria mãe, pelas pessoas que cobram propina nas autoescolas e nas delegacias, pelas pessoas que encontro todos os santos dias, quepensam apenas em seu bem-estar, o que não seria errado se não prejudicassem intencionalmente os outros, por essas, o mundo poderia se acabar agora. Ando pessimista e cada dia mais. Evito notícias. Evito tragédias. Evito confirmar diariamente a minha constatação. 

O meu conforto é saber que ainda há gente linda. Gente gostosa, gente de verdade. Gente que não quer nada além de viver bem com todos. Esse é o meu conforto e a minha paz. Quanto ao resto, eu concordo e faço minha as palavras do poeta:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – era pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O nativo


O relógio despertou, como sempre, às 6:00 da matina.  Abriu os olhos com um esforço incrível, olhou através dos vidros trincados da janela e percebeu que o tempo parecia escuro. Levantou-se, escovou os dentes, cuspiu no lavatório e jogou água no cuspe para limpar, enquanto fervia a água do cafezinho que levaria para a obra. A mãe dormia ainda, pegaria serviço mais tarde. Colocou a roupa do trabalho pesado na mochila, que estava arrancando a alça, passou o café e comeu um pão dormido com margarina, que era mais barato. Calçou as botinas e desceu as ladeiras de Ouro Preto, correndo, estava atrasado para o trabalho. O pior era que teria que ir até o centro, ou à Rua, como dizem, na hora do almoço, para resolver um problema no banco. Não sabia muito bem como usar os caixas eletrônicos. Quando passava pelo centro da cidade, deparou-se com uma blitz de policiais, que ao vê-lo, rapaz de baixa estatura, negro, com roupas surradas, não tiveram dúvida em revistá-lo. Ele já estava acostumado... Se fosse um turista, um estudante, um desses bam bam bans de Ouro preto, eles nem paravam, mesmo que estivesse arrolhado de drogas. É a vida. Batida terminada, correu mais ainda para a obra. Chegando lá, colocou a sua roupa da semana, com a sujeira da obra, e foi para o sol escaldante que já estava fazendo. Esse é o clima da cidade, imprevisível. Trabalhou duro em cima dos telhados, brincou com os companheiros e riu muito. Um amigo nunca tinha ouvido falar em cappuccino, disse que era café com leite. Assim, a manhã se foi e a hora do almoço chegou. Colocou a marmitinha que a mãe havia preparado na véspera num fogareiro a álcool e engoliu o arroz com feijão, mostarda, angu e ovo. desceu a rua da igreja São Francisco para chegar aos bancos, que estavam lotados. As pessoas o olhavam. Estava tudo muito agitado por que também era véspera de carnaval, e Ouro Preto no carnaval é uma loucura. Mas, disso ele gostava, se misturava a todos, nativos, turistas e estudantes, bebia até cair, dançava, beijava moças lindas na "ofegante epidemia, que se chamava carnaval". Quem não gostava era a sua mãe, dessa zona, como dizia, dessa corja que vem para a cidade sujar e depois ir embora. Sem falar na violência, sempre matam um. Era o que sempre falava quando o filho se perfumava para sair. Demorou no banco, o atendente era impaciente e ranzinza. Ele não era cliente Uniclass, classic, ou qualquer um endinheirado. Resolveu e saiu apressado, atrasado. A rua São José estava lotada, turistas passeavam vagarosamente como se não houvesse amanhã, fechando as calçadas. Aquilo o irritou e começou a agir como sua mãe agia e o fazia sentir vergonha, na infância. Empurrava os turistas e xingava, ele tinha que voltar ao trabalho, pô! Chegou atrasado, o patrão o olhou com careta, mas nada disse. Subiu para os telhados, o estômago já roncava, mas não tinha nem um real para comprar um pão de queijo. Ficou lá, tostando sua pele negra (ou preta, seja lá a forma permitida pelos bem aventurados), suando, trabalhando, carregando telhas, caibros e vergalhões. Começou a se sentir mal, mas teimou em trabalhar, até que teve uma vertigem e se sentou no chão de terra. Os amigos se preocuparam e pediram que ele ficasse lá até a hora da saída, que estava próxima. Ele não queria, mas não conseguia trabalhar. Um amigo lhe deu um vale transporte, foi para casa de ônibus, sem trocar a roupa da obra. As pessoas se afastaram discretamente. 

Uma vez sonhou em ser médico, mas o sonho durou pouco... Impossível entrar na universidade, nem sabia como funcionava, nem sabia onde existiam os cursos de medicina, não sabia de nada. Só achava chique ser médico. Mas, como ser médico, se, quando o pai estava vivo, bebia mais que gambá nesses bares dos morros e chegava jogando panela nas paredes e palavrões na família? Como estudar se a mãe nem sabia ler, tinha que sair para trabalhar nas repúblicas e não tinha tempo para ficar com os filhos? Como estudar se, aos 15 anos, teve que trabalhar na obra com o pai, de 7 às 17:00, comendo pouco e trabalhando muito? Não deu. Iria ficar por ali, nos morros mesmo, trabalhando nas obras. 

Chegou em casa e já tinha um caldo de mandioca preparado pela mãe. Ela trouxe uma roupas dos estudantes que poderiam servir nele, até uns abadás de antigos carnavais, os que ele nunca teve dinheiro para comprar. Ficou feliz. Combinou com os amigos, através do celular surrado, e foi para um bar próximo. Os amigos pagariam a rodada, amigo é assim. Beberam, conversaram, contaram os casos de assombrações de seus antepassados, jogaram sinuca. Já tinha melhorado, deve ter sido o sol, mas nunca teve frescura antes. Sentou na calçada e olhou para as estrelas, pensou em como devem ter vivido os escravos nos morros. Pegou um violão que estava por ali, e começou a dedilhar umas modas, como seu pai fazia. Em Ouro Preto é assim, todos tem arte. Sentiu sono. Foi para a casa cambaleante e se deitou na cama. Tinha que acordar cedo, trabalho, mesmo que sábado. Ao menos, o carnaval estava perto.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Depressão

Olhar para o mundo e ficar de saco cheio,
Odiar as esperanças dos esperançosos,
A alegria dos inocentes,
O entusiasmo dos fogosos.

Não ter forças para respirar,
Não querer, e ver o tempo passar,
Andar trincando os dentes,
Deitar sem acordar.

Não desejar mais  o cappuccino,
a viagem tão sonhada,
a presença dos ausentes,
Não desejar nada.

Morrer de olhos abertos,
Não sonhar, mesmo que certo
De que nada mais se sente 
E o fim está perto.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A ciranda do Facebook




Eu passei uns cinco anos da minha vida conectada, a maior parte do tempo. Inventava de fazer vídeos, ficava discutindo sobre política e religião com as pessoas, me indignava com opiniões radicais, conversava com dez pessoas ao mesmo tempo, via vídeos de todos os tipos, ria dos memes, criava memes, criava grupos, e assim, os meus dias se escorriam pelos meus dedos enquanto eu vivia uma vida sentada em frente a uma tela de computador. Quais são as minhas lembranças desses dias? Não as tenho. Parece que esses anos foram apagados de minha existência, nada fiz, nada vivi e não me lembro sequer do que aconteceu na internet. Fiquei um tempo deprimida, reclusa, afastada de tudo e de todos. Mesmo quando estava com as pessoas, queria estar ali, conectada, e muitas vezes, ficava.

É impossível viver sem a internet, lá estão quase todas as informações das quais precisamos, mesmo que possua 100 vezes mais informações falsas e informações das quais não precisamos. A internet nos serve, ou nós servimos à internet? Pergunta clichê, mas importante e que merece reflexão.

Já falei inúmeras vezes sobre as redes sociais e de como elas me irritam profundamente, pois sei bem o que elas fazem com um ser, especialmente com os carentes ou com os que não tem controle sobre seus impulsos. Toda a vez que entro no Facebook, eu sinto mais raiva e desejo de agir exatamente como as pessoas que estão lá, postando suas vidas, tenho vontade de dizer um monte de besteiras também. Quando dou uma olhadela pelas postagens de conhecidos,e, especialmente, de pessoas que não estão em meus contatos (Não sejamos hipócritas, a maioria das pessoas usa o Facebook para ficar sabendo sobre os outros), eu sinto ânsia de vômito. 

O Facebook se tornou um outdoor para que façamos propagandas de nós mesmos, a fim de convencer a todos e a nós de como somos exemplos de seres humanos. São textos enormes de pessoas falando sobre seu amor pela família, de seus atos de caridade, pessoas que nunca tomaram conta de suas próprias vidas. São pessoas que querem forçar o público a acreditar que suas vidas são perfeitas e que vivem um eterno romance. Pessoas que querem mostrar momentos de glamour, pessoas que querem provocar o ex, pessoas que querem falar o que não tem coragem de falar diretamente, pessoas que sentem falta de algo e procuram preencher com likes de outros que não fazem nenhuma diferença em suas existências. Pessoas que, quando algo importante acontece, preferem ficar discutindo com desconhecidos, reclamando na internet, que dividir com a família, pessoas que estão em um momento especial, mas perdem minutos para tirar fotos e mostrar para o mundo que estão nesse momento especial, pessoas que perdem a oportunidade de confortar quem está perto, para noticiar as tragédias para os outros que estão longe. Momentos que não farão parte da memória dos que estavam online, mas que farão, com certeza, parte da memória dos que estavam presentes com os ausentes.

Hoje, eu também luto contra a minha vontade de me conectar apenas por pensar que não tenha nada de interessante para fazer, e, conectando, perco a chance de criar algo e viver de verdade. Não me ausento da internet, mas busco capturar dela o que seja necessário. 

Para mim, o maior problema das redes sociais, em especial o Facebook (guardem o que digo, esse Zuckerberg tem planos malignos de dominar o mundo), e que interfere nos relacionamentos humanos próximos e reais, além de se tratar da maneira como você age e permite que as pessoas ajam em relação a você, é o tempo gasto e a necessidade que se tem de estar conectado. O tempo gasto: tempo que poderia ser produtivo, tempo que poderia ser aproveitado com as pessoas que estão presentes, gasto em planos, em ações; a necessidade: a falta de sossego e de paciência para estar na vida real por inteiro, a preocupação constante de se estar conectado na bosta do Facebook. O mal não é (ainda) o Facebook, mas o uso que fazemos dele, como nos relacionamos nele e com ele, e a importância que ele tem em nossas vidas.

Não há nada de errado em desejar dividir momentos com pessoas importantes para nós. Não há nada de errado em dividir nossas vidas e nossas bobagens com estranhos também, se essa é uma necessidade. A questão, que é complexa é, qual a importância que esses tipos de situações e interações com os outros, conhecidos ou não, têm para cada um de nós, ou, o que realmente nos traz felicidade? Os momentos ou a aprovação alheia?

Perdi cinco anos. Perdi amigos queridos. Perdi a minha irmã e o meu cunhado em um acidente e isso me fez valorizar a vida. Não quero mais perder tempo com atividades das quais não terei lembranças,  o pouco tempo de vida que tenho na Terra. É uma luta sair dessa ciranda, mas a vida é uma luta. E, estou viva!



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